Disparos imunes

Como aqueles disparos de WhatsApp nas eleições dos Esteites e na do Brasil, que jamais serão punidos, até porque seus efeitos são irrevogáveis, temos agora a ação coordenada dos hackers e a divulgação do colóquio entre Sergio Moro e Deltan Dallagnol, que provavelmente persistirá impune bem ao estilo brasileiro. E pouco adianta aparecer agora uma agência da Espanha, Enviawhatsapps, confirmando que ela foi contratada por empresas brasileiras para disparos em favor da campanha de Jair Bolsonaro. O TSE abriu ação sobre esse tipo de manobra em outubro e passados oito meses ninguém foi ouvido na denúncia de que bolsonaristas financiaram mensagens contra Fernando Haddad. Já o PT, por fazer uso de conteúdo lançado nas redes, acabou multado pela corte. Esses episódios reforçam a crença de que a justiça eleitoral não está equipada para assumir os crimes conexos conforme decisão do STF, tema agora objeto de pretensão da Raquel Dodge, procuradora da República, que quer o enquadramento de Aécio Neves na justiça federal e não na eleitoral, instância desejada pela maioria dos políticos.

A prática havida, conforme depoimento do dono da agência, Luis Novoa, foi a de empresas, açougues, lavadoras de carros e fábricas no Brasil comprarem seu software para disseminar propaganda, praxe ilegal por se enquadrar como doação de empresas em eleições, o que é proibido no Brasil. Tanto um caso, o da orquestração dos hackers na captação da conversa imprópria do juiz com o procurador, como o do festerê com mensagens eleitorais, ficam impunes, o que chega a ser irônico no momento de desgaste justamente da Lava Jato que surgia como redenção nessa área.

Invenções

Quando inventaram aquela caixa obrigatória de primeiros socorros para os motoristas, o chio foi grande e acabou, por sua inutilidade operacional, proibido. Pois agora temos aí a questão dos simuladores sob restrição nas autoescolas por decisão do Conselho Nacional de Trânsito. Quando de sua adoção, o então diretor do Departamento de Trânsito do Paraná, Marcelo Almeida, postou-se contra a iniciativa, chegando ao ponto de escrever artigos em jornais. Dá para imaginar a série de atropelos que as autoescolas tiveram que enfrentar, de ordem financeira inclusive, para sua adaptação. Trânsito sempre foi um tema de todos e agora, como se vê no Brasil, que também ocupa o presidente da República a querer intervir no quadro de punições, combater excesso de fiscalização e suprimir a cadeirinha das crianças.

A culpada

Uma das canalhices do momento é de atribuir à Lava Jato a crise das empreiteiras e creditar em sua conta a crise que atinge todas envolvidas em atos notórios de corrupção, a perda de empregos e tudo o mais. A maior de todas, a Odebrecht, acaba de protocolar pedido de recuperação judicial na Justiça de São Paulo: suas dívidas chegam a R$ 98,5 bilhões, maior processo de nossa história. Como é que os manipuladores da informação agem? Lembram, por exemplo, que o grupo chegou a faturar R$ 132 bilhões e a empregar 193 mil trabalhadores e que as suas dificuldades aparecem logo no início da Lava Jato. Sugere-se que no balanço do custo benefício o mercado teria sofrido muito e se o nosso jeitinho prevalecesse a empresa não enfrentaria tais vicissitudes. Ocorre que ela reconheceu as suas falhas ao aparecer em episódios de pequena e enorme amplitude e em quadros lacônicos como aquele do amigo do amigo do meu pai.

Insubordinação

Estamos sujeitos novamente a atos de aguda retaliação na greve marcada para o dia 25 dos funcionários públicos, dessa feita com possível participação de militares da reserva e de esposas do pessoal da ativa. Várias entidades de militares já aderiram à manifestação, o que é sabidamente proibido. Todavia não é a primeira vez que isso ocorre e houve uma delas em que as esposas dos PMs assumiram o comando de operações de fechamento de quartéis e também de esvaziamento de pneus de viaturas. As esposas operavam à frente dos quartéis como se apenas elas estivessem na rebelião e os maridos apenas parados. .

Diante desses informes, o governo de Ratinho Junior teve que se mexer, já que o movimento ganha outra expressão em termos de cautelas com a segurança pública, de vez que dessa feita não é apenas um bloqueio da APP e outros sindicatos. Ademais, a circunstância de barnabés do Executivo estarem há três anos com salários congelados é algo que não se elide com a alegada transposição dos indicadores da Lei de Responsabilidade Fiscal. Carecem os argumentos do lado do governo, posto que centrado na superação do limite prudencial dos gastos com pessoal. De outro lado, a relação governo-deputados não é a mesma da situação anterior, marcada por obediência e tratoraços, notadamente sob Beto Richa, cuja agenda judicial foi novamente referida nessa terça no caso da "Quadro Negro".

Folclore

O aumento pretendido pelo funcionalismo, a despeito das perdas de 17% acumuladas, é de apenas 4,94%, um tico-tico no código verbal de Beto Richa.

mockup