Desidratar é preciso?

É notória a ausência de articulação nos embates da reforma. Essa ausência de posição fechada sobre os temas revela que o Senado, mais do que a Câmara Federal, se dispõe a mexer nos projetos oficiais com mais determinação. Quer participação no pacto federativo e se mantém de olho no racha do pré-sal. A manutenção do abono salarial, ao contrário do que pretendia a equipe de Paulo Guedes, expressa uma aspiração de nível municipal que no Paraná, só para exemplificar, evitou perdas em até R$ 1 bilhão que beneficiariam um milhão de trabalhadores. Retirado o pretendido pela PEC, Proposta de Emenda à Constituição, em plena madrugada, percebeu-se que a desarticulação é maior do que se imagina.

Efeitos devastadores em nível municipal já haviam sido previstos pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos, Dieese: em Curitiba deixariam de receber o abono 212.394 trabalhadores, 26% da massa obreira, e em Londrina 57.325, o equivalente a 37% da mão de obra, seriam afetados. Além desse tipo de surpresa há a ameaça concreta de estar, desde já, afetado o cronograma da reforma, o que obrigou o governo a escalar o secretário de Previdência e Trabalho, Rogério Marinho, para fazer o levantamento dos pedidos dos parlamentares num clima em que se insinuou que se dá mais bola à Câmara Federal do que ao Senado.

Toda desidratação é ônus do governo, que precisa dar sinal de vida agora no Senado porque na Câmara Federal dependeu da Casa e expressamente de Rodrigo Maia, seu presidente. Pintava o mesmo clima no Senado, mas ali a coisa desandou.

Mais derrotas

A confirmação da derrota da Lava Jato mantém sob ameaça as sentenças prolatadas se não for encontrado um meio de travar seus efeitos de um modo geral. A ideia era dar sequência ao tema ainda hoje, mas como vários ministros não poderão estar presentes houve adiamento. A cada dia a visão da força-tarefa de Curitiba se vê mais degradada, aumentando seriamente o número de seus críticos, alguns tão radicais como Gilmar Mendes, que sempre viu nas prisões prolongadas uma pressão para obter na marra as delações premiadas.

Com a entrada em campo do ex-procurador da República Rodrigo Janot a situação se agravou com suas declarações e ainda as afirmações do seu livro, tudo contribuindo para a degradação da operação que surpreendeu o mundo e está na origem agora na crise institucional do Peru.

Parece que a única forma de reagir seria a manutenção e expansão do ciclo punitivo como prova de vitalidade e capacidade de resistência.

OAB em teste

Ainda persiste no Tribunal de Contas da União a pretensão de que a Ordem dos Advogados do Brasil, como qualquer entidade reguladora do exercício profissional, tenha sua movimentação acompanhada por aquele órgão. E agora pinta num plano menor, o caso de um advogado que não paga sua contribuição à entidade, foi ameaçado por isso de impedimento do exercício da profissão e recorreu à justiça, que lhe concedeu o direito de advogar. Como se vê até situações consolidadas como essa da imanência institucional da OAB é afinal duramente questionada. Nada surpreende num momento em que se cogita uma CPI contra tribunais superiores, na Lava Toga, num instante em que o STF legisla e exerce poder de polícia, e ainda na pretensão do Judiciário investigar o advogado de Adélio Bispo de Oliveira, aquele que atacou Bolsonaro a facadas, Zanone Manuel de Oliveira, cujo escritório foi devassado pela Polícia Federal e os materiais apreendidos não foram à pericia porque a Justiça acatou pedido da OAB fixando o sigilo profissional garantido pela Constituição, o livrinho, como se referia o general presidente Eurico Gaspar Dutra.

Primeira vista

Na posse do novo Procurador da República, Augusto Aras, o presidente Jair Bolsonaro voltou a usar metáfora de namoro, como é de seu estilo, para afirmar que teve um amor à primeira vista pelo empossado. Fez comparações ao jogo de xadrez, no qual o procurador seria a peça da rainha, o presidente do Senado, DavI Alcolumbre, seria a torre, o presidente do STF, Dias Toffoli, o cavalo, e seus ministros os peões. "A independência" - disse - "que as peças têm de ter para poder trabalhar é a garantia do sucesso no cumprimento da missão".

Festerê

Ao promulgar o reajuste dos servidores do Judiciário, Procuradoria da Justiça, Tribunal de Contas, Legislativo e Defensoria Pública, o deputado Ademar Traiano, presidente, afirmou que o ato era um compromisso da Mesa Executiva, uma resolução de conjunto. E houve festerê da parte de sindicato e associações que representam os beneficiados. Tudo permanece torto em relação ao pessoal do Executivo, o punido do momento, que não tem a quem apelar. Os casos de isonomia não são enfrentados, apesar de revestidos como direito adquirido.

Folclore

Uma das cenas mais estranhas do futebol paranaense se deu com Gilberto, centroavante que veio da base do Flamengo para o Coritiba. Num jogo depois de perder três gols incríveis, ele aproveitou a corrida para sair do estádio com todo o aparato de guerra. Foi um drama para acertar a substituição insólita.

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