Delação tardia

As revelações – exploradas com ênfase e no sentido negativo - do The Intercept Brasil repetem fatos conhecidos como o ponto de vista de Sergio Moro de que era fraca a delação de Palocci. E não apenas dele, mas dos procuradores em geral e tanto que isso rendeu um atrito entre eles e a Polícia Federal, que acabou levantando a tese de que ela também tinha direito à delação, o que o Judiciário afinal confirmaria a contragosto do Ministério Público. As delações que sobrevieram a tudo isso e feitas pela Polícia Federal é que trouxeram novas cargas.

Aí houve o comentário de um procurador no sentido de que o ex-ministro de Lula e Dilma de que "embora seja difícil provar ele é o único que quebrou a omerta petista". Intenções e comentários são dados como fatos com a maior naturalidade e em casos como esse em aberta contradição com a realidade, já que o testemunho referido foi um dos que mais duraram para ser feitos e percebeu-se que a Polícia Federal tinha fundadas razões para ter acesso às delações em derrota do Ministério Público, que pretendia esse monopólio.

A livre interpretação desses vazamentos, de origem clandestina e criminosa, fica por conta dos meios de comunicação, que obtiveram o acesso e tentam sugerir que o fazem por idealismo e pelo bem do Brasil, como sugeriu uma das frases do hacker Walter Delgatti Neto.

Nesse mosaico há coisas que não colam como a tal disponibilidade generosa por ter juízo negativo da Lava Jato do portador do acervo, cerrando fileiras com todos os corruptos deste país que a reprovam por motivações óbvias e bem determinadas.

Mau momento

Precipitações de Sergio Moro se tornaram mais frequentes, como aquela de sugerir a queima dos documentos, e agora a portaria que permite a deportação sumária de estrangeiros tidos como perigosos. Há uma articulação de parlamentares para derrubá-la e junto a aliados de Rodrigo Maia, aquele que tornou viável a tramitação da reforma previdenciária.

É uma evidência de que os vazamentos atingiram duramente a imagem do ministro e ele já não detém o status de inquestionável como se dava no seu tempo de juiz. É verdade que adeptos do fluxo judicial insistem em decalques e outdoors e parece que o grupo favorável à sua atuação no STF se mantém na postura adotada de defendê-lo e aos efeitos de suas sentenças, mas aparenta ausência de fatos positivos para sustentá-la nesse momento, o que se pode prever nova carga positiva de condenações, inclusive a esperada confirmação da sentença de primeira instância no episódio do sítio de Atibaia às vésperas de ratificação. O momento não é bom porque a sociedade está ideologicamente cindida no assunto.

Frase e realidade

Uma coisa é uma das frases comuns de Bolsonaro sobre sexo, meio ambiente e convívio com a diversidade. Mexer com o tamanho do pênis dos japoneses, da cabeça dos nordestinos ou o peso de um quilombola (em arrobas) é o seu jeito mesmo e ninguém vai mudar. Torna-se, no entanto, mais agudo, quando põem em dúvida a excelência de registros do Inpe, Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, ou do IBGE, Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. E há o transbordamento em ocorrências como a invasão da Terra Indígena Waiãpis no assassinato de um líder da aldeia no Amapá para a qual drenam todas as inconsequências frasísticas. A Polícia Federal está lá desde domingo investigando a invasão de garimpeiros em terras indígenas.

Liberdade

A Medida Provisória da Liberdade Econômica vai mexer com símbolos patriarcais como relógio ponto, dispensando-se de batê-lo e por acordo individual abrir mão de registro de jornada e marcar apenas faltas, folgas e horas extras. Segundo especialistas, mudança no ponto poderá reduzir número de processos por hora extra.

Corrida

Embora aparentemente mudanças na Lei de Responsabilidade Fiscal com o escopo de reduzir a sonegação fiscal e por isso se enquadre nos propósitos da reforma fiscal, ela já está na Comissão de Assuntos Econômicos do Senado e tende a ser mais rápida do que a outra, ainda que aparente ser mais abrangente. Ocorre que a reforma fiscal até agora em pauta não é de iniciativa do Poder Executivo. Objetivo é mais imediato para aumentar a arrecadação e cria, inclusive, um cronograma anual de fiscalização. Pelo que se nota há falta de organicidade nas ações do governo, mesmo das que partem do ministério da Economia.

Folclore

Morte de Getúlio Vargas em 1954 não favoreceu o PTB, cujo candidato Estevão de Souza Neto ficou abaixo do terceiro lugar e bem distante do prefeito eleito Ney Braga e do segundo, Wallace de Mello e Silva, pai do Requião. Pior do que isso se deu em 1961, quando o prefeito Iberê de Mattos fez o agito pela posse de Jango Goulart com referência até a armamento da população e figurou na eleição para deputado estadual como sétimo suplente. Nem sempre o auê das mobilizações e tragédias é suficiente para sucesso eleitoral.

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