De vilão a herói

Na sequência de manifestações sobre o clima em várias partes do mundo e em foco a Amazônia com seus incêndios, a ida do presidente Jair Bolsonaro à ONU é algo pontilhado de riscos. No início do seu governo seria hostilizado ao receber uma prebenda em Nova York e houve transferência de local para evitar os tumultos. Ainda há o risco de um cartão amarelo, já enunciado por Antonio Guterres, secretário da ONU, tanto ao Brasil, EEUU e Japão, que não anunciaram de antemão planos para aumentar metas climáticas sujeitos a veto nos discursos.

O Brasil se beneficia de uma tradição que vem do fim da Segunda Guerra e em nosso caso teve o chanceler Osvaldo Aranha como orador, que por sinal teve participação destacada na criação do Estado de Israel. A ONU substituíra a fragilizada Liga das Nações e vivia um momento especial ante um cenário que por tudo negociava o consenso.

Bolsonaro é o homem do dissenso local e internacional: é cético nas demandas das minorias, vale-se de uma postura radical contra consensos ambientais e coloca em discussão todo esse convívio com críticas radicalíssimas de complexa assimilação. Deve ter avaliado todos esses fatores para dar o seu recado, que veio com sacrifício em meio à convalescença da última cirurgia e chegou a dizer que lá estaria mesmo que fosse em cadeira de rodas.

O elevado nível de convicção das ações presidenciais, pelo menos na reação dos seus seguidores nas redes sociais, tem sido um alento para essa disposição, mas a imagem mundial de Bolsonaro é a de um vilão do meio ambiente pela fogueira não apenas a amazônica e se ele se sair bem dessa em sua missão terá, se não para todos, ao menos pelos mais fiéis, se metamorfoseado em herói.

Tese xecada

Tudo conspira contra os intentos de Sergio Moro: notórias as disposições do governo contra o ciclo punitivo deflagrado pela Lava Jato e os bloqueios aos organismos de controle estão aí para confirmá-lo. Há muitas restrições ao pacote anticrime e sua tramitação no Congresso se anuncia acidentada. A morte da menina Ágatha, de oito anos, é um elemento contra uma das disposições do estatuto que concederia imunidade para a polícia matar em serviço, como ocorreu com essa tragédia do Complexo do Alemão. Fatos reais como o impacto da morte, baleada nas costas no interior de uma kombi, tem mais força do que qualquer argumento em favor da excludente de ilicitude para a qual o presidente da Câmara Federal, Rodrigo Maia, reclama avaliação cuidadosa e criteriosa.

O momento não é bom para o ministro, pois o próprio governo se distancia dos objetivos do primeiro fluxo judicial na história do Brasil que encarou, a um só tempo, a corrupção endêmica e a impunidade genérica. O erro fundamental foi o de aceitar função política e tomar partido, o que diluía o empenho demonstrado na força tarefa e prejudicado em sua inteireza pelas revelações das tramas com a força tarefa pelo Intercept Brasil.

Revelações

A Odebrecht tentou barrar a Lava Jato no primeiro ano da operação. E se mexeu, com tal objetivo, junto a políticos de várias extrações, de Aécio Neves a Ciro Gomes e Michel Temer, e há abundante material em emails. Isso se deu antes da prisão da cúpula da empresa em junho de 2015. Marcelo Odebrecht, antes da prisão, se referia à operação como "Caixa de Pandora", "Apocalipse" e "Morte anunciada". O maior objetivo dessas conversas, sugerem os emails, era mostrar à presidente Dilma Rousseff que seu governo cairia se não houvesse reação forte contra a investigação em andamento. Algo, enfim, como a advertência do senador Romero Jucá pelo bloqueio daquilo que sangrava.

A empresa conseguiu na justiça recuperação judicial, deve R$ 7 bilhões em indenizações em função dos danos causados à União por conta dos esquemas de corrupção, sua dívida atual é de R$ 98,5 bilhões e 21 empresas do grupo estão envolvidas no processo.

Por essa narrativa se percebe a complexidade da ação da força tarefa e as possibilidades visíveis de reversão, não fossem as prisões cautelares e prolongadas e que levaram Marcelo Odebrecht e tantos outros à delação premiada.

Desalentados

Hoje há uma preocupação por parte de estudiosos de questões sociais a dimensão do grupo denominado desalentado, que é a referência ao brasileiro que desistiu de procurar emprego, hoje em 5 milhões, quase 5% da população economicamente ativa. O Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas faz estudo dessa fauna que ante o quadro de apertura perdeu as esperanças. Resumindo, pode-se dizer que esse segmento é de negras, pessoas com pouco estudo (sem ensino médio completo). Um dos fundamentos para incluir-se nesse grupo é por não encontrar emprego na localidade em que moram, 60% deles moram na região Nordeste, 51% estão na faixa etária de 14 a 33 anos, 55% são mulheres, 73% se declaram pardos ou pretos, 68% não concluíram o ensino médio.

Folclore

Quando das batidas atrás de livros esquerdistas no regime militar os amigos de Nelson Galvão juntaram os alfarrábios que havia na casa e lançaram tudo no tanque do Bacacheri. Ao chegarem, logo depois da visita da polícia política, perceberam que havia uma pintura de Lenin de quase um metro no meio da sala. Nem eles, nem os investigadores perceberam. Se fosse o cantor Lenine certamente entenderiam.

mockup