Credo seletivo

Há ideia-força no governo estadual expressa na frase síntese, a "de fazer mais com menos". Só que apenas um lado a pratica integralmente, o funcionalismo estadual, há três anos sem qualquer reajuste. Já o lado governista só acumula derrotas, como a que impediu reduções nas cotas orçamentárias dos demais poderes, perdurando no entanto os alegados cortes de salários do primeiro e segundo escalões, gestual insuficiente para a imposição da austeridade como sistema.

A propalada, com tanto foguetório, redução de secretarias, obtida com solavancos de gestão inevitáveis, contabiliza economia de pouco mais de R$ 10 milhões anuais. De outro lado, a receita anda a pé e a despesa em elevador, apesar das iniciativas e concursos para estimular o pedido de nota fiscal.

Embora com maioria parlamentar mais tranquila do que a de Bolsonaro, não teve pegada para obter o mínimo avanço nas reduções de gastos dos demais poderes, que aliás foi tratada com evidente desprezo como se não tivesse qualquer utilidade quando na verdade o governador tentava fazer aquilo que seus antecessores, à exceção de Cida Borghetti (que ao menos tentou solução intermediária), deixaram de fazer no papel de estadista na persuasão ao Judiciário, Legislativo, Ministério Público e Tribunal de Contas pela baixa dos seus custos.

Mobilizar mais

O governo não está brincando e ao afirmar que a proposta dos 5,09% é a final e não abre outra alternativa aos sindicatos que não a continuidade da greve, prenhe de dificuldades, porém, de qualquer forma, impositiva. Também não tem alternativa e certamente na sequência de incidentes é que se poderá gerar fatos novos e capazes de obrigar a volta do diálogo. Estragos já são visíveis na questão do sempre agredido calendário escolar. O imobilismo desejado não terá espaço.

Meia sola

O texto-base da reforma previdenciária, aprovado com relativa tranquilidade, por 36 a 13, conserva parte do arcabouço desejado pelo Ministério da Economia, mas encontrará dificuldades no plenário, não havendo garantia dos 308 votos. O envolvimento do presidente da República no debate em favor dos policiais federais e rodoviários se frustrou, havendo empenho de aliados para consertar o pleito em plenário, o que também encontrará dificuldades. Essa mediação do presidente, já lá no início, visível no tratamento aos militares, foi tida como despropositada por animar pressões e trabalho de lobby de outras categorias.

Polêmica

A carta de Léo Pinheiro afirmando que não sofreu qualquer coação por parte do Ministério Público foi contestada pela defesa de Lula. A divergência de versões talvez explique por que há tanta cautela da Procuradora Geral da República, Raquel Dodge, em dar andamento à delação e sua ratificação formal há cinco anos estacionada para análise em seu gabinete.

Cerco

O informe de que a Polícia Federal estaria investigando o jornalista Gleen Greenwald, editor do The Intercept Brasil, levou o líder da oposição no Senado, Randolfe Rodrigues, a apresentar requerimento para que os ministros Sergio Moro e Paulo Guedes esclareçam se isso de fato estaria ocorrendo e a referência ao ministro da Economia decorre da notícia de que houve pedido ao Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) sobre movimentações financeiras do editor. A partir da leitura pelo presidente do Senado os ministros terão 30 dias para responder aos questionamentos sob pena de enquadramento em crime de responsabilidade. Difícil é saber no atual cenário brasileiro se um informe como esse, que aparece nas redes sociais, é verdadeiro ou especulado.

Fofoca

Nos tempos de chumbo havia muito desse tipo de informe, mas na Boca Maldita um dos hábitos era o da autenticidade em xerox. Todo dia havia alguma às vezes extraída até da CGI, Comissão Geral de Investigações. Essa fidelidade não impedia a circulação de fofocas e o presidente da confraria, Anfrísio Siqueira, teorizava sobre a eficácia da mentira repetida, inovando a frase clichê do gênio Goebbels sobre a mentira repetida : "o boato pode ser o embrião da verdade".

Folclore

Agora o presidente da República implica de novo com um consenso: é a favor do trabalho infantil e cita seu caso que aos nove anos trabalhava numa fazenda. Percebe-se que aquilo que é conceitual tem seu lado contestável e há uma legião que se coloca a favor daquilo que pode ser visto como heresia. Há nisso tudo uma sintonia intelectual quando, por exemplo, o ministro Ricardo Salles, do Meio Ambiente, afirma com a máxima ênfase que a Amazônia tem "desmatamento relativo zero." E ele afirma: "temos um desmatamento que, em números inteiros, já é zero, é 0,2. Então não estamos longe do desmatamento ilegal zero." O sofisma às vezes se dá até na matemática.

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