Bravatas no mundo sério
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terça-feira, 07 de janeiro de 2020
Luiz Geraldo Mazza 
Bravatas no mundo sério
A racionalidade suposta das tensões internacionais não impede o uso da bravata mormente na guerra da informação: o Irã rompe o acordo nuclear e anuncia o enriquecimento do urânio e armazenamento do combustível fora de qualquer limite, e o Iraque, por seu parlamento, pede a expulsão de tropas estrangeiras (referência aos 5 mil soldados americanos) e Trump adverte que 52 alvos iranianos serão atingidos com o aumento da tensão.
Com todas as cautelas, nada impediu que o número de países habilitados ao clube, ainda meio fechado, crescesse, dentre eles Índia e Paquistão, sem falar na Coreia do Norte. Os tais estoques nucleares, ainda elevados, apesar dos avanços do acordo, do qual saiu a potência americana no ano passado, constituem paradoxalmente num fator de contenção, o que traduz a dimensão da loucura vivida.
Efeitos inevitáveis na economia, sabendo-se que 30% da produção do petróleo passa por área estratégica do Irã, serão sentidos, e a morte do general Suleimani é o fundamento de esperada vingança num caso do qual o Brasil deve guardar respeitável distância, apesar dos impulsos do presidente Bolsonaro, que não pode criar problemas como aquele da embaixada brasileira em Israel que contrariaria interesses comerciais generalizados na região, afetando a balança comercial. Como tantas, aquela era uma bravata. O fato é que a adesão automática pretendida colocaria o país como alvo da reação iraniana, com perdas econômicas e riscos para segurança.
Moro por cima
Pesquisa Datafolha mostrou que Sergio Moro é a figura ainda dominante da política nacional, em que pese a campanha dirigida contra a Lava Jato: a distância entre ele e Bolsonaro é de 33% contra 22%, o que explica o repique de atos presidenciais contra seu ministro. Seguidas manifestações pela guerra contra a corrupção em meio aos esforços para acoimá-la de ilegal e injusta não mudam a opinião popular e se fossemos efetivamente um país centrado na opinião pública a farsa do contra-ataque seria demolida.
O dia útil
Embora o primeiro dia útil tenha se seguido ao 1º de janeiro, somente ontem, dia de Reis, o de desmontar o pinheirinho, é que se consumou diante do feriadão estabelecido. Costuma-se dizer que no Brasil o ano novo só começa depois do carnaval, apesar da chegada dos carnês do IPTU e de outros municipais e estaduais, junto com despesas incontornáveis na aquisição, por exemplo, do material escolar, para botar todo mundo sintonizado.
Novidade mesmo é a vigência da lei de abuso da autoridade e das normas eleitorais que proíbem governos e gestores públicos de distribuírem gratuitamente bens, valores ou benefícios, exceto em casos de calamidade pública. Por sinal que com as chuvas e as cheias afetando tantas cidades é possível o amparo da exceção emergencial.
Vilão com know how
Assumindo postura de personagem da linha 007, o brasileiro Carlos Ghosn, que fugiu, de forma rocambolesca, do Japão é assunto internacional. Uma série de falhas, como a da empresa controlada pela Nissan para monitorá-lo e que parou de fazê-lo, está entre eles. Por sinal que à maneira de criminalistas brasileiros, acusa de no Japão não prevalecer a presunção de inocência e sim o contrário. O ex-executivo das multinacionais deu um drible de mestre nos seus perseguidores e agora está por conta da Interpol.
Racismo
Cada vez mais rica e variada a linha de argumentação de que se pratica abertamente formas de racismo em nossas relações sociais . A própria Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) do IBGE mostrou, com abundância de dados, que há uma diferença salarial de 31% entre negros e brancos. Só preconceito racial justificaria a desigualdade entre trabalhadores com ensino superior.
Conter aposentadorias
Está decidido que o governo Ratinho Junior criará estímulos para que servidores em geral e especialmente professores e policiais se mantenham na área pública, com o que haverá economia de oito bilhões em dez anos. Atualmente essa compensação é uma taxa de permanência que ao menos no caso do pessoal do Executivo cobre o reajuste que lhes é negado. É preciso encontrar uma faixa compensatória mais adequada para evitar novas contratações.
Feminicídio
Mais de quinhentos acusados de ameaçar esposas e companheiras, estas sob custódia de medidas protetivas, foram levados à polícia pela transgressão sistemática à norma. Parece, no entanto, cautela insuficiente para garantir a segurança das mulheres, pois são comuns casos de reincidência específica ou genérica e nesse particular ainda há muita falha.


