Auditórios seletivos
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 26 de junho de 2019
Luiz Geraldo Mazza 
Auditórios seletivos
Com a frustração parcial da greve dos barnabés estaduais percebeu-se que o auditório dos sindicalistas é a galeria do Legislativo estadual, da mesma forma que o de Jair Bolsonaro é a rede social. Não resolvem, mas dissimulam na medida em que expressam dimensões não correspondentes à realidade, porém eficazes para efeitos políticos. Enquanto persistir o arrocho salarial dos servidores a minúscula oposição dele se valerá para exibir musculatura que não tem e se sentirá estimulada pelo ruído das galerias, tal como naquele dia em que mais de sete mil pessoas deram apoio ao adiamento da matéria ideológica e reacionaríssima da escola sem partido.
Obviamente, se houver um público desse porte não será fácil aos deputados defender posição oficial, até porque já são meio íntimos desses frequentadores da Casa, tal a frequência com que lá comparecem para o exercício possível e tolerável da ação direta, a última e de maior força a do massacre sob Beto Richa com mais de duzentos feridos. Definido o auditório, as sessões do Legislativo, isso sem desprezar, como ontem, manifestações hostis diante do Palácio Iguaçu, teremos a continuidade de uma novela até que o governo, num rasgo de generosidade, ceda em conceder o reajuste inferior a 5% em três parcelas e que se perceberá que o custo dessa operação, a feitura das folhas, desmontaria a imagem de economia que o governo tenta projetar.
O tempo
Nas mobilizações de ontem percebeu-se que o poder de fogo da APP-Sindicato não é o mesmo de tempos passados. Ocorre que essas demonstrações são desgastantes até pela escassez dos resultados, isso configurado nos três anos de congelamento. O know how grevista é o maior de todas as nossas categorias, o que não o vacina contra o desgaste ao longo do tempo, ainda no ano passado compensada por alguns bilhões nas folhas de pagamento de promoções e também de progressões que favoreceram categorias arregimentadas como a dos professores e policiais. Pois agora o governo acena os dispêndios com licença-prêmio como um dos óbices para qualquer concessão, já que atingiriam cerca de R$ 1 bilhão.
Greves seguidas sem um mínimo de resposta dispersam energia nos enfrentamentos com a revelação nada agradável de que são infrutíferas. Todavia, de qualquer forma há um fator que mobiliza para a luta por vezes diversionista como a da polícia mostrando publicamente as suas péssimas condições de trabalho com frotas jurássicas e ainda assim alvo de roubalheira. Quem se sai mal é o governo condenado à impotência e sem fôlego para combater adequadamente a corrupção.
Resposta à altura
No momento de maior acirramento contra a Lava Jato, com as publicações da The Intercept Brasil, a força-tarefa responde com mais feitos como o das novas denúncias em torno dos chunchos internacionais de Paulo Preto e percebeu-se no recuo do STF em adiar o julgamento sobre a suspeição de Moro nos processos de Lula a vitalidade de imagem da operação, infensa à atoarda em torno de contaminação dos atos judiciais. Aos poucos se tenta dar aos diálogos entre o procurador Deltan Dallagnol e o juiz Sergio Moro um significado superlativo que não é acolhido por toda a comunidade jurídica e simplesmente sinaliza o desespero dos acuados, que, aliás, desde o início das operações agem como se qualquer deslize fosse o suficiente para liberar Lula das mais de dez investigações que responde e que não se limitam à sedução de empreiteiras, que sempre onipresentes gravitavam em torno dele, e o cumulavam de agrados nos casos do tríplex e do sítio, um convívio que só pode gerar a presunção de culpa, nunca e, em tempo algum, a de inocência.
Demarcação
O STF impôs derrota a Bolsonaro ao suspender, em liminar do ministro Luis Roberto Barroso, a medida provisória que devolvia ao Ministério da Agricultura a demarcação de terras indígenas e isso depois de o Congresso ter barrado também tal iniciativa. Essa liminar deverá ser julgada pelo colegiado de 11 ministros, que poderão referendá-la ou não.
Como se não bastasse, houve a derrubada do decreto das armas no Senado, e segundo Rodrigo Maia, presidente da Câmara, a proposta deve cair naquela Casa. O pais institucional funciona porque tantas vezes provocado.
Dissenso sempre
O povo é pelo desarmamento e isso já é um consenso de maioria? Basta a confirmação para que o presidente da República se oponha. Maioria é pela diversidade e contra a homofobia e é suficiente para que Bolsonaro se rebele. Agora levantou outro dissenso: Fórmula 1 no Brasil só continua no país se for no Rio de Janeiro.
Folclore
No anedotário médico-legal há algumas passagens curiosas como a do doutor que assinalou como causa mortis "tosse... e que tosse" e outra "o burro do polaco tinha que tomar injeção no músculo e tomou na veia".


