Até aqui tudo bem
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quarta-feira, 10 de abril de 2019
Luiz Geraldo Mazza 
Os cem dias de Ratinho Junior, ao contrário do ocorrido com Bolsonaro, foram tranquilos, mas persiste a advertência, a terceira seguida, de que está a um ponto do limite prudencial, feita pelo Tribunal de Contas na questão das despesas com pessoal. Mudou o jeito de governar – e a supressão de secretarias, embora o baixo retorno de R$ 10 milhões anuais, é prova disso –, porém as deformações persistem, mesmo com o congelamento por três anos dos salários do pessoal do Executivo. É que até na inércia a folha cresce, seja com quinquênios, que ao fim de 25 anos dá o adicional equivalente mais a licença-prêmio, essa com boas chances de extinção, que normalmente é traduzida em gastos e com dribles do governo para contorná-la. Além de tudo isso em promoções e progressões teremos no exercício dispêndio de R$ 270 milhões.
Aposta-se nos efeitos de uma recuperação da economia, decorrente da reforma previdenciária, pois até aqui, a despeito de todos os esforços, a despesa, por incrível que pareça, cresce bem mais que a receita. O diagnóstico do governo, desde a campanha, é correto, o problema é o efeito de uma terapia de médio e longo prazos.
Dá para imaginar que os conflitos sindicais – com professores e policiais – serão inevitáveis, esperando-se que se deem sem a demagogia habitual de não cortar dias parados de grevistas até para testar sua verdadeira força, e que a conduz, por essa via, à arrogância e à soberba, o que acaba tornando o cenário dessa variável da luta de classes (difícil imaginá-la no contexto) uma farsa como naquela observação de Marx a Hegel sobre o fim da história.
Guru em alta
O guru do presidente Jair Bolsonaro, o filósofo Olavo de Carvalho, havia perdido alguns seguidores no Ministério da Educação antes da queda do titular da pasta, o colombiano londrinense Ricardo Vélez Rodrígues, mas emplacou o economista e mestre Abraham Weintraub, que promete gestão técnica e empenho na luta contra o marxismo cultural que na perspectiva da direita permearia o ambiente acadêmico. Tanto o marxismo cultural, que mais se ajusta a uma visão de consenso, quanto a nova política oposta à velha carecem de melhor clareamento doutrinário, traduzido quase numa resistência ao stablishment.
Analistas têm visto a solução adotada na pasta da Educação como uma derrota dos militares, que parecem configurar no governo um setor aberto à permanente mediação. Lula tinha gurus como também o próprio Collor com Sergio Jaguaribe e o diplomata e crítico de arte Merquior, Fernando Henrique com seus luas pretas e até o aparentemente modesto Michel Temer, nenhum deles com a aura radical do olavismo, que mais cedo ou mais tarde será decodificado. Até lá persiste a pulsão de slogans para manter unida a base que ganhou a eleição.
Reprise
Não há motivo de espanto na pretensão levantada pelo ministro da Educação, que caiu de fazer revisões históricas nos livros didáticos. Já vimos isso no fermento que levou ao golpe ou, como querem os direitistas, à Redentora em 1964. Entre as produções culturais no fermento da Guerra Fria apareceram os autores da história nova, visão centrada no desenvolvimentismo nacional, aquele de Getúlio Vargas, alimentado por uma fábrica de ideologia, o ISEB, Instituto Superior de Estudos Brasileiros, contraposto abertamente à Escola Superior de Guerra, que cristalizava nossos compromissos históricos e geopolíticos com os EEUU. Houve um momento em que se falou na simplificação dos livros didáticos e isso foi o suficiente para a exploração ideológica do livro único, apontado como desrespeito à liberdade de cátedra. Ney Braga, do alto do Palácio Iguaçu, às vésperas da intervenção, em discurso, lançou o livro abominado ao chão do Centro Cívico como gesto final da Marcha com Deus e a Família pela Liberdade, a sinalização civil e das ruas para os comandos militares, àquela altura articulados pelo Chefe do Estado Maior, Castelo Branco, que seria ungido presidente.
Concessões
Se a forma como se tratou a questão das Forças Armadas na Previdência decepcionou por suas fracas respostas – redução em uma década de apenas R$ 10,1 bilhões -, a admissibilidade do corte da capitalização, admitida por Bolsonaro por seu aspecto polêmico, esvazia e muito a intenção do ministério da Economia, que nela apostava como fundamento sólido do processo de reforma.
Indireta
O Big Brother Brasil revela claramente que as novelas postas em analogia ao reality show não estariam tão desgastadas quanto se julga.
Crise
Há várias formas de enfrentar a crise e Curitiba mostra que uma delas é dar R$ 5 para cada táxi que leva fregueses a uma churrascaria.
Folclore
A aposta agora é no sentido de que o próximo ministro a cair será Marcelo Álvaro Antônio, do Turismo, e por causa de um truísmo que derrubou Bebiano, o das candidaturas laranja de Minas Gerais. Situações bem distantes da faxina sequencial de Dilma Rousseff.


