Apesar de tudo, funciona

Nunca em nosso país tantos impactos, a despeito da sua força desarticuladora, foram absorvidos, metabolizados com a maior naturalidade. Nem a força de um governo aureolado nas urnas, como era da tradição, se impôs e isso num momento em que se faz a anatomia dos poderes, expressa na indiscrição dos hackers. É dose pra mamute, mas o fato incontestável é que as instituições, ainda que agredidas como nunca, estão aí.

Tudo é submetido à autocrítica e começou pela intangibilidade, por seu feito inegável de puncionar a corrupção endêmica, da Lava Jato exposta em sua credibilidade no abuso das relações do juiz com o procurador-chave da operação. Estamos tomando um banho de verdade, mais do que isso, um porre.

Há, porém, uma incontornável dificuldade: como esperar que agentes públicos, intoxicados por doses descomunais de ideologia, atuem com equilíbrio e com aquela perspectiva de aceitar o "outro". É o único problema, traduzido em partidarização extrema que parece não submeter-se a filtros até nos tribunais. A resposta virá na reforma capenga e na queda do decreto de Bolsonaro, que eliminava órgãos colegiados da administração federal no STF. E hoje ainda temos a greve geral, mais uma competição para ver quem bota mais gente na rua, se governo ou oposição, quando gente na rua como desempregado é um dos feitos nacionais que devemos a todos os governos, seja qual for sua tonalidade no espectro ideológico.

O Brasil funciona desse jeito que parece um estilo, uma vocação e até condenação.

Memória

Em primeiro havia a autoridade do pai, hoje relativizada, lá pelos anos 40-50, na área dos adolescentes. Seguia-se a dos professores como o temido Francisco Ribeiro, diretor do Ginásio Paranaense, cujo gabinete para convocação de alunos que pisassem na bola era um terror, ou então a rígida disciplinadora Iraíde, diretora do Grupo Xavier da Silva. E havia o culto respeitoso, sinal de intimidante do policial Caputo e do agente do juizado de menores, Serrato.

O que temíamos em nossas burlas era a de ser levado como infrator a uma escola correcional, dentre elas a mais temida, a da Ilha das Cobras. Éramos também ligados em sinais de apreensão com os jipinhos azuis do major Lira, que foi chefe de polícia por algum tempo. Apesar dos sustos, vivíamos a nossa aventura nas ruas, jogando futebol na calçada, improvisando espaços para jogar peteca e bolinha de gude e às vezes pulando cercas para roubar pomares às voltas com cães bravios e, pior ainda, os tiros de sal na bunda, que identificados em casa eram punidos pelos pais. Clara burla ao princípio jurídico de que ninguém pode ser punido duas vezes pela mesma infração.

Sedimentos

Todo governo deixa sedimentos, alguns comprometedores, como se deu com Beto Richa em episódios como a "Quadro Negro", a "Publicano" e "Patrulha Rural". O governo atual está anunciando que 15 das obras envolvidas na operação que apreciou desvios em construções escolares serão finalizadas até março, oito centros educacionais concluídos e apenas três escolas, em Campo Largo, Ponta Grossa e Cornélio Procópio, aguardam nova licitação. Bola pra frente. A punição é restauradora, mas o funcionamento da Educação é mais relevante.

Defesa da "república"

Lula valeu-se de uma ironia ao sacar a história que havia uma república em Curitiba com leis e direitos próprios. Acabou com isso ratificando o título, sempre posto em questão mormente agora e de forma intensa com os vazamentos, que lá na frente tanto a beneficiaram. Mas o ministro Edson Fachin, relator da Lava Jato, defendeu a operação como geradora de nova concepção na luta contra a corrupção, gerando padrões exaltados no mundo inteiro. Postaram-se também na defesa da República de Curitiba os senadores Flavio Arns e Alvaro Dias, que argumentou que a volta da discussão do projeto sobre abuso do poder não se transforme em conspiração contra a Lava Jato como já era em sua concepção original.

Suspeição

A pressão no STF, em sua segunda turma, pela suspeição de Sergio Moro deve ser levada a votos no dia 25, isso no exame de habeas corpus do ex-presidente Lula. A ala garantista - Gilmar Mendes, Ricardo Lewandowski - poderia, dessa feita, contar com o apoio do ministro Celso de Mello, que normalmente vota a favor da operação. Sergio Moro fará antes romaria em comissões de constituição e justiça das duas casas do Congresso.

Desidratada

A reforma da Previdência, com a perda da capitalização, retirada de estados e municípios e aposentadoria rural, na Câmara Federal, está agora desidratada e liofilizada. Economia a ser gerada em uma década fica entre R$ 800 bi e R$ 900 bi. O trilhão fica na referência de que foi isso que o contribuinte cedeu até maio neste ano ao Tesouro Nacional.

Folclore

Nem todos que são contra a corrupção apoiam tudo o que fez a Lava Jato, mas claramente a totalidade dos nossos grandes e pequenos corruptos está contra ela desde o inicío das suas gravíssimas revelações.

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