Apenas isso: um teste

Não houve até hoje na história brasileira um presidente que se opusesse a tudo que é consensual como Jair Bolsonaro. Entre os consensos que rejeita estão os indicadores do Datafolha, como também não deu a menor relevância à tradição ritualística das listas tríplices para Procurador da República e ungiu Augusto Aras, desmontando a resistência da maioria da corporação. Claro que recebe o apoio da claque cada vez mais interessada em sacadas do gênero, que olham como uma revolução o choque produzido.

Quem é testado com isso é o aparato institucional e o povo brasileiro, que já enfrentou a santidade de Getúlio Vargas, a euforia de JK, bilhetinhos de Jânio, exibicionismo de Collor e tantas outras de sérios e mandriões. Reforça-se a meu ver no caso em tela a impressão de que temos pela vez primeira um homem comum no comando a agir sistematicamente como um provocador despreocupado com o que diz e faz, a rigidez antiintelectual de quem ganhou chutando o pau da barraca e agora contra o politicamente correto empenhado em tarefa que tem aparência de uma derrubada de tudo, aí figurando –por que não? – as florestas.

Vetou 36 pontos da lei de abuso da autoridade e terá aí um teste, pelo menos na opinião da bancada paranaense, que acredita que será derrotado. Até aqui, apesar de tudo que aprontou, se mantém em boas relações com os demais poderes que não deixa de provocar. O primeiro filtro é o institucional, até agora metabolizando tudo, e quem responderá por tudo será a sociedade, esse agregado multifacetado e que só reage em situações especiais. Ou paga por sua omissão, como tem ocorrido aqui e no mundo.

Reações

O veto à lei de abuso da autoridade não terá sentido tão dramático quanto as sessões do Senado que habilitarão o novo procurador da República e também a nomeação do filho de Bolsonaro à embaixada dos EEUU. Mexe, no entanto, diretamente com o brio parlamentar tanto da Câmara quanto do Senado e ainda com os interesses difusos da Lava Jato como fundamento ideológico da vitória eleitoral porque a fauna política viu na proposta um ato de legitima defesa contra o que chamam de ´´criminalização´´ do seu agir.

Pode até sair-se bem dessas provações, porém, está nítido que não será moleza do tipo da reforma previdenciária.

Militarização

Seria impossível num governo Lula ou Fernando Henrique Cardoso uma iniciativa como a de Bolsonaro no sentido de militarizar as escolas. É verdade que nos confrontos de qualidade e eficiência escolas militares saem à frente, às vezes até as tocadas pela Polícia Militar e em termos de excelência as do ensino superior, como o Instituto Tecnológico da Aeronáutica, ITA, consagram esse alinhamento. Empenha-se o presidente, com o entusiasmo do seu ministro da área, que durante o seu mandato 216 unidades adotem o modelo.

Preservação

O súbito destaque até internacional alcançado por Cruzeiro do Oeste com seu sítio paleontológico de dinossauros e répteis voadores faz lembrar que no caso dos núcleos da República Teocrática Guarani e dos aldeamentos espanhóis o esforço de arqueólogos como Oldemar Blasi não foi devidamente recompensado. Também o mestre Loureiro Fernandes lutou para que a experiência "socialista" (do romântico Charles Fourier) da Colônia Teresa Cristina, bolada pelo médico Maurice Faivre, no vale do Ivaí, fosse conservada e também são precários os sinais da experiência anarquista da Colônia Cecília em Palmeira. Enquanto nos centros urbanos dá para registrar casos de restauro, na questão dos sítios em que ocorreram episódios históricos a tarefa é complicada.

Já a natureza específica da questão paleontológica dá mais possibilidade de respostas positivas do que por exemplo a tentada na preservação das grutas e cavernas e da arte rupestre que nelas se insere. Tanto cavernas quanto sambaquis têm sido alvo de massacre e no uso até de material calcáreo para ajuste de estradas.

Desemprego

Há em elaboração um plano de emergência no Ministério da Economia para estimular o emprego massivo e que aparenta ser a resposta mais direta à crise. Entre as ideias está a de liberar R$ 65 bilhões (depósito para recursos trabalhistas) por seguros e liberar a grana para capital de giro e qualificar desempregados com recursos do Sistema S ou de filantrópicas da educação. Uma das propostas é da redução de 50% no FGTS pra quem contrata desempregado há mais de dois anos ou jovem.

Folclore

No golpe militar um grupo de estudantes de colégio religioso decidiu empastelar a sucursal do jornal "Última Hora", que ficava no Edificio Asa, na Praça Osório. Chegaram a lançar dejectos contra as instalações e encontraram pela frente o ator Paquito Modesto, português, que enfrentou sozinho o grupo de manifestantes, defendendo-se com pedaços de madeira. Alguns dias depois o jornal foi fechado pela "Redentora".

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