Se é possível o presidente do Senado devolver, por inconstitucional, Medida Provisória que agredia a autonomia universitária, ao Executivo temos a impressão de que a interdependência dos poderes está respeitada. É semelhante à sensação do povo que reage à flexibilização como se a crise tivesse chegado ao fim e parte para o abuso. Essa forma de convívio entre poderes, no caso das nomeações de reitores, dispensou aparentemente grandes negociações e se tratava de matéria de alta indagação e profundo sentido doutrinário.

Da mesma forma a investigação sigilosa pelo Ministério Público do ataque de bolsonaristas ao STF com carga de fogos de artifício sugere normalidade institucional não frequente. Vivemos nesse pêndulo tanto no trato da pandemia como no exercício da política. A notícia de que o presidente teria censurado a presença do ministro Weintraub nas manifestações também nada tem de comum. De outro lado STF e governo do Distrito Federal, que havia bloqueado as concentrações, suspeitam que a Polícia Militar se manteve inativa ante o ataque e assim por diante como as bruxas de Macbeth mexendo no caldeirão de males.

Tudo o que aparenta simplicidade não é condimento adequado à nossa realidade, prenhe de suspeitas e conspirações.

Laranja

O alerta laranja adotado na capital em função do aumento de casos novos da Covid-19 e mortes provocou reações de grupos interessados no afrouxamento das medidas. A Associação Comercial acatou a solução intermediária ao lockdown denominada "laranja", uma espécie de cartão amarelo do futebol. Isso se dá no momento em que a Sociedade Brasileira de Infectologia prevê pioras para a saúde na semana e o relaxamento em São Paulo estima alta de 71% de mortes até o início de julho, previsões de pesquisa da USP e FGV.

Outra exceção

A pandemia não bloqueia o transporte e a movimentação portuária: mais de 50 mil caminhões possibilitaram a sequência de recordes em 5,7 milhões de toneladas, indicador 44% maior do que o apurado no ano passado, nos terminais, público e privados, de Paranaguá.

Mansueto sai

Como a época é apropriada à noticia ruim, mais uma: o secretário do Tesouro Nacional, Mansueto Almeida, que controla o caixa, desde 2016, deixa o Ministério da Economia, intenção que tinha há muito tempo e que adiou por causa do caos sanitário. É um pregador das reformas e diz que qualquer solução passa por elas. Promete transição tranquila.

Mais ênfase

O presidente do STF, Dias Tofolli, havia criticado as dubiedades do presidente e agora, depois do ataque com fogos à Corte, acusa que elas são estimuladas por integrantes do próprio Estado e financiadas ilegalmente. A contenção retórica fica cada vez mais difícil. Nem o glossário tucano resolve.

Folclore

O delegado de polícia Miguel Zacarias era incorrigível com a boemia, e certa vez hospitalizado foi desmascarado pelos amigos que o visitavam: levantaram o lençol e viram ele vestido para mais uma jornada na madrugada e isso com terno, gravata e sapatos lustradíssimos.

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