Agulha no palheiro
PUBLICAÇÃO
sábado, 23 de março de 2019
Luiz Geraldo Mazza 
Se cada um dos políticos do Brasil fosse submetido a um questionamento como o do ex-presidente Michel Temer, abrangendo 40 anos da sua carreira, quantos escapariam da degola? Obviamente teríamos que procurar agulha num palheiro para identificar possíveis exceções. Só isso mostra que pode haver de tudo no choque intrapoderes, menos aquilo a que juristas se referem na integridade dos processos - razoabilidade.
O choque é inevitável ante a extrapolação das partes (o STF ao tirar encargos da PGR sob a suspeita de comprometimento e ex-adversos, também institucionais, aí abrangendo a justiça de primeiro grau, em exasperado conflito) e não há clima para a reflexão e a racionalidade, ambas inviáveis na luta por afirmação e necessário protagonismo.
O fato elementar é que a classe política está desmascarada como corporação até porque é de sua índole negociar, através de emendas, sua adesão a situações - limite que podem ser algo como a reforma da Previdência ou a salvação do mandato de um presidente denunciado. Faz parte do jogo que não pode ser olhado como algo ideal, como sugerem os bolsonaristas, do alto de sua torre de marfim, ao alegarem que prisões e impeachments de presidentes (as de Lula e Temer e os de Collor e de Dilma) simplesmente decorrem da tal governabilidade e do “toma cá, dá lá”, do qual não conseguem escapar, como se vê na soma de dificuldades para articular a base aliada, boa parte ansiosa por algumas compensações.
Que economia?
Da mesma forma que a lipoaspiração secretarial de Ratinho Júnior dá pouco mais de R$ 10 milhões por ano (a supressão das aposentadorias de ex-governadores pouco além de R$ 4 milhões), o que não anula seus dominantes aspectos morais, percebemos agora que as concessões à aposentadoria dos militares renderão em dez anos pouco mais de um bi anual quando Beto Richa, numa tacada, tirou R$ 2 bi anuais da Paranaprevidência para dar folga ao Tesouro, descapitalizando brutalmente seu fundo de pensão. No episódio a ousadia extrema do então governador e a timidez, o acanhamento, de Jair Bolsonaro, que o compromete na condição de aposentado do estamento, ante a questão e que levará no mínimo a um pedido de isonomia de tratamento por outras categorias no trâmite da tão ansiada reforma.
Por sinal que teremos hoje as manifestações das centrais sindicais em todo país contra a reforma previdenciária e, inclusive, com promessas de greve geral pelo comando paulista como se deu em 2017, apesar do embalo popular massivo havido quatro anos, o que estabelecido o paralelo evidencia fracasso. Há um trabalho de base para evitar furos na manifestação que no Paraná tentará abranger as cidades grandes e de médio porte e tudo se manterá sob o comando superior de São Paulo com a concentração, às 17 horas, à frente do Museu de Arte, o Masp.
Boa tacada
Pela primeira vez a tese do porto bioceânico é abordada em nível formal pelos países interessados na estada do presidente brasileiro no Chile. Resposta de alto nível ao principal tema até aqui levantado pelo governo Ratinho Júnior que o projetou como reivindicação geopolítica regional, causa abraçada por Bolsonaro e ora discutida.
Todos se recordam que na campanha eleitoral de José Carlos Martinez houve detalhado enfoque a essa logística que permitiria acesso pelos portos de Paranaguá (Brasil) e Antofogasta (Chile) aos oceanos Atlântico e Pacífico intensificando o trânsito de mercadorias. Mais tarde, já no governo Jaime Lerner, houve novas referências ao assunto e que Ratinho Júnior incluiu, e isso acertadamente, entre as metas do seu programa.
Efeitos
Em primeiro plano os efeitos das prisões de Michel Temer e de tantos outros aliados como Moreira Franco parecem beneficiar a Lava Jato e, consequentemente, o ministro Sergio Moro e o próprio Jair Bolsonaro que se vale do episódio dos antecessores como decorrência da tal governabilidade da velha política. Fortalece, no entanto, a resistência de advogados e do próprio Lula que se declara perseguido e injustiçado e vê no fato uma retaliação. Juristas mais liberais vêm abuso de protagonismo e uma das sentenças mais pesadas veio do ex-presidente do STF, Carlos Veloso, que viu o fato como “furor punitivo inaceitável”.
Empate
Sondagem da Paraná Pesquisas sobre a eleição de prefeito de Curitiba dá empate técnico entre quatro postulantes: Rafael Greca (19,4%), Gustavo Fruet (15,7%), Ney Leprevost (14,8%) e Fernando Francischini (14,3%). Seguem Luciano Ducci (7,2%), Maria Victória (4,4%), João Arruda (3,8%).
Folclore
Numa aposta de políticos afirmava-se que Beto Richa jamais terá carga tão pesada como a dos seus colegas cariocas Sergio Cabral e Pezão e o fato de ter sido preso e solto várias vezes pode até ser mais novelesco, todavia revela um cenário melhor. Na semana o Tribunal de Justiça negou o habeas corpus e o pedido de transferência de presídio em Pinhais.


