A primeira ministra da Nova Zelândia afirmou solenemente que jamais se referiria ao nome do terrorista que atacou as duas mesquitas do país. Essa exclusão de um nome que não deve ser enunciado se vincula a um antigo tabu voltado a palavras mágicas como referência ao demônio e a doenças pela noção de que elas próprias não só levam ao terrorismo como ao anti-deus do mal em presença física e à proliferação das moléstias referidas.

Nos estudos sobre organizações primitivas, o clan totêmico, esse poder contagioso da palavra já aparece com destaque. Em aglomerados tribais da Polinésia foram detectados e, por incrível que pareça, chegaram à nossa civilização. A própria imprensa do passado, lá dos anos cincoenta, quando me iniciei nessa gloriosa tarefa, evitava dar o nome das doenças, e como sua prática era parnasiana dizia-se que fulano de tal padecia de “pertinaz moléstia” ou então de doença incurável. Jamais seriam capazes, como fizeram esta FOLHA e a repórter Ruth Bolognese, de produzir em página geminada uma entrevista sobre a luta de Fani Lerner, primeira dama, contra o câncer, um documento humano, de alta sensibilidade.

O linguista Rosário Farani Mansur Guérios tem um livro, “Tabús linguísticos”, sobre o tema em que desenvolve o efeito moderador e mediador da expressão “nôa”, que teria função de evitar o contágio da magia. O povão, a seu modo, criou palavras substitutivas, amainadas, para driblar a maldição. Ela não é uma troca eufemística, todavia detém a salvaguarda, mais do que isso, a blindagem contra a magia: em lugar do demônio ou satanás vem o cão, o coisa ruim, o tinhoso, cramulhão.

Esses bloqueios são lembrados agora num país ultramoderno na localidade de Christchurch, que celebra a 29 de março uma jornada nacional em memória das vítimas dos ataques para que as pessoas de todo o mundo percebam como são os neozelandeses “compassivos, inclusivos e diversos e que vamos proteger esses valores”, no dizer de sua primeira ministra, Jacinda Ardern.

Outra interdição

Hoje estamos às voltas novamente com impulsões mórbidas para o suicídio, antes com “Baleia Azul”, agora com “Momo”. Ainda é prática no jornalismo não noticiar suicídio com o objetivo de evitar reações contagiosas e até em cadeia, algo que prevaleceu mesmo no universo acadêmico. É evidente que o bloqueio não valeria para a tragédia de Getúlio Vargas e a mais recente do reitor da universidade de Santa Catarina.

Há também o culto adverso de supostos filósofos e até romancistas por sugerirem indicações estimuladoras como se desenvolveu em relação a “Werther” de Goeth, que teria figurado, conforme a lenda, em “cemitérios” de bibliotecas, distante do acesso público. O filósofo Jean Paul Sartre teria considerado o suicídio como o maior problema da filosofia. Houve um tempo em que os pais exerciam vigilância sobre os filhos por suas escolhas bibliográficas, o que hoje, com as modernas tecnologias, se torna ocioso até porque é extremamente difícil esperar algo eficiente com as redes sociais, alvo máximo das preocupações.

Moro e Bretas

Com o desgaste inflingido a Sergio Moro, tanto nas decisões do STF como na situação dentro do governo Bolsonaro, a Lava Jato em destaque ficou a do Rio de Janeiro, com as prisões de Michel Temer e Moreira Franco, ora abaladas com as contestações às decisões de Marcelo Bretas. As críticas ao lado espetacular desses últimos acontecimentos eram pesadíssimas e nela surfaram também os defensores de Lula para condenar o que chamam de ciclo punitivista que precisa ser detido para que se recupere o equilíbrio das decisões judiciais que comprometem o Estado de Direito Democrático. Com a palavra - e mais do que isso, a ação - o outro lado, aquele que não figurava na história brasileira voltado à impunidade e à corrupção.

Mudança de nome

Ainda na esteira dos temas ora abordados como o dos tabus linguísticos temos a onda da troca de nomes dos partidos. Os partidos comunistas, por exemplo, trocaram e no Brasil um deles virou o Partido Popular Socialista, PPS, suposta vertente do antigo partidão, menos raivoso que o PCdoB. Era uma das tantas alternativas de esquerda, a qual sempre se junta a palavra democrática para evitar associações indesejáveis. Pois agora o PPS muda para Cidadania, com o que pretende melhor identificação e alternativas políticas à população.

Curioso no Brasil é que o PSD de Getúlio Vargas pretendia ser a expressão aqui do Welphare State, Estado do Bem Estar europeu, e acabou, com inversões de letras, sendo o partido dominante do regime militar, como PDS, tentando sugerir social democracia, ainda que mero substituto da Arena, que jogava ping-pong com o MDB.

Folclore

Se a Lava Jato enfraquece, certamente levará ao declínio da Lava Toga, a prometida para mexer com magistrados das cortes superiores. E a Bolsa, por causa de tanto nervismo, vai ter que procurar especialista para subir.

mockup