A força dos cartéis

Já em 1946, ainda que o Brasil vivesse um ciclo pré-capitalista, discutiu-se a hipótese de uma lei anti-truste, que viria gerar o Conselho Administrativo de Defesa Econômica, CADE. Foi uma iniciativa prospectiva, o que é apropriado ao processo constituinte, na geração do "vir a ser", dimensão, às vezes, de utopia.

Em plena ditadura o escritor Kurt Mirow lançou "A ditadura dos cartéis" e acabou preso pela piada pronta na confusão com o título da obra, visto como "ditadura dos quartéis". Esse o agudo problema de uma ordem liberal face aos processos de concentração capitalista e o jogo de interesse das grandes corporações. Por sinal que tivemos agora uma reação normalíssima da construção civil, em momento de notória recuperação, depois de longo padecimento com os efeitos retracionistas da recessão, opondo restrições à ideia de brincar de aleluia com os recursos do FGTS a pretexto de ativar o consumo. Aleluia, esclareço, é um folguedo antigo do século retrasado que consistia em lançar dinheiro, guloseimas e outros valores ao ar para que a gurizada os desfrutasse, algo como os "aviõezinhos" de R$ 50 que o Sílvio Santos lança para suas colegas de auditório. Aleluia é referência aos insetos em grupo, em colônia.

Bastou a procedência do alertamento para que o governo suspendesse a medida face à necessidade de medir seu impacto negativo, ainda que apontada como saída do sufoco, no caso específico do "lobby" preocupado com o que vê como desperdício de uma de suas fontes essenciais de financiamento. Basta lembrar que do valor executado, ano passado, do FGTS, 87,5% foram destinados à habitação em R$ 55,1 bilhões. Uma estimativa das construtoras prevê corte de até 1,6 milhão de empregos diretos e indiretos, notadamente do "Minha Casa, Minha Vida", na hipótese da redução em R$ 30 bilhões do saldo em função dos saques.

Já a decisão de nomear o filho 03 para embaixador, posto que bem discutida, constrange os conselheiros mais próximos em palpitar em sentido contrário para não desagradar o pai, patrão e patriarca.

Recessão

Apesar do intervalo aberto com essa mediação da construção civil está nítido que temos à frente, outra vez, um quadro de recessão, visível na reavaliação da queda do PIB e manutenção do desemprego. Evidente, também, que um desafogo apenas dará um respiro, mantendo-se o cenário primeiro para a recessão e depois por sua consolidação na depressão. Variados são os sinais e um deles no Paraná na circunstância de que os leilões de imóveis de inadimplentes subiram 81%.

Moro atleticano

Só falta agora cobrar de Sergio Moro, por eventual detecção de fala indiscreta nessa série do The Intercept Brasil, superdimensionada pela mídia, de que torce pelo Athletico Paranaense e falseou, junto com Bolsonaro, ao botar a do Flamengo no Maraca. Duas enganações, já que o presidente é Palmeiras, e seu nome por causa do baixinho e batedor de faltas Jair da Rosa Pinto, que por sinal era mais meia esquerda, como jogou no Santos, Vasco e até no Madureira. Esquerda, mesmo que meia, não pega bem para um destra radical.

Pesquisa

Sondagem do Instituto Multicultural (mais essa Folha e rádio Paiquerê) mostrou Bolsonaro (60%) e Ratinho Junior (56%) com aceitação, e o prefeito de Londrina, Marcelo Belinati, com 43,5% de positivo e 48,5% de negativo. Crítica mais aguda para aquilo que está mais perto.

As acacianas

O conselheiro Acácio era o sentenciador do óbvio. Nem sempre o óbvio é ululante, como no ponto de vista dos casos mais enfáticos na expressão de Nelson Rodrigues. Acácio, como Pacheco, personagens de Eça de Queiroz, geraram paradigmas comportamentais. Uma das revelações, ainda ontem fartamente exploradas e como sempre num sentido negativo, das falações da Lava Jato mostra Sergio Moro expondo o ponto de vista, acacianíssimo, de que juiz deve impedir benefício excessivo a delator e isso é posto como patologia e não regra ética e processual.

Uber

Consolidados os sistemas de transporte pelos aplicativos teremos em sequência a queda, cada vez maior, das frotas de táxis, como já se deu em Curitiba. A morte de um operador do Uber em São Paulo, sem assistência e proteção, mostra que o sistema, infenso à regulação (e está aí o seu forte), como se deu nos Estados Unidos da América, sofrerá sanções administrativas e judiciais que acabarão gerando normas. O grupo foi fortemente multado por não dar apoio a ações de segurança e já teve no exterior questionamento da relação trabalhista com os seus operadores. Precarização é extrema e a situação de seus trabalhadores lembra a dos autônomos entre os caminhoneiros, agravada no caso do transporte de grãos, como essa "Folha" o demonstrou.

Folclore

Inri Cristo, que veio de Santa Catarina para o Paraná, no passado era astrólogo com o nome de Yuri de Nostradamus e explorava um programa na TV Paranaense, Canal 12, era pré-Globo. Teve problemas em Ponta Grossa e sumiu do mapa, reaparecendo numa figura mais forte na perspectiva mítica e espiritual e ganhou tal expressão que apareceu em programas como o do Jô Soares, montou templos e andou até pelo interior da França.

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