1964 e 1935, qual mais forte?
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sexta-feira, 29 de março de 2019
Luiz Geraldo Mazza 
A insistência do presidente Bolsonaro em celebrar a “redentora” levanta uma questão histórica: 1964, como evento político-militar, é mais contundente do que a intentona de 1935 dos comunistas, reveladora de um choque interno e que teve palcos no Rio e em Natal? No caso, aberta dissensão entre militares, posto que os agressores em minoria; já em 1964 o que houve foi a reação articulada de comandos para intervenção na ordem civil, sob coordenação do Chefe do Estado Maior.
Durante muitos anos a celebração da traição militar de 1935 nutriu a Guerra Fria e constituiu-se num dos fatores que levaram à supressão do Partido Comunista e à cassação dos mandatos parlamentares, em plena Constituição de 1946, contra a qual nosso maior parlamentar, Bento Munhoz da Rocha Neto, na condição de um dos maiores liberais do país, se insurgiu.
A de 1964 é fruto de um cenário geopolítico alterado profundamente com a revolução cubana e sua adesão à órbita soviética e também o quadro chileno e decorre de compromissos estratégicos já firmados na Segunda Guerra nos campos da Itália. Castelo Branco, que articulou a ação contra Jango, estava lá.
E foi de lá que veio o compromisso de fundar a Escola Superior de Guerra, fundamento ideológico da intervenção que teve uma prévia tensa em 1961, pós renúncia de Jânio Quadros, com a resistência de Leonel Brizola, governador gaúcho, a uma tentativa de derrubada de Jango, na qual a mediação do comando do III Exército, Machado Lopes, impediu o conflito ao não subestimar o peso da polícia militar gaúcha na hipótese de conflito.
Com o passar do tempo a celebração de 1935 foi substituída pela de 1964, como a revolta de 1932 pelos paulistas, a constitucionalista, ante a revolução de 1930 se dissolveu na memória.
Essa tentativa de aquecimento mnemônico de Jair Bolsonaro testa as instituições e vemos em cena a contestar a pretensão a Defensoria Pública e advogados isoladamente. Ainda estamos em regime constitucional.
Esgrima infantil
Ficaria melhor para as instituições que o conflito entre os presidentes da República e da Câmara Federal virasse uma alegoria brincalhona, uma comédia pastelão, com a dupla de digladiantes se enfrentando com travesseiros ou lançamento de tortas do que suportar o tom das bravatas em que se sobressai a mínima falta de elegância. Maia, irritado com as retiscências de Bolsonaro, afirma que o presidente brinca de dirigir o país, e o outro chiou pela falta de educação.
O choque de teatro mambembe é bem a definição momentânea do país e o bate boca ofuscou a ida de Paulo Guedes à Comissão de Assuntos Econômicos do Senado, onde obviamente se saiu bem na forma determinada como defendeu a reforma sem a qual o país explode. Já defendi a tese de que Jair é a primeira figura comum a assumir a presidência no país e não vai ser fácil habituar-se ao seu estilo. Chegou a insinuar que Maia passa por um momento em que se vê abalado por questões pessoais, referência sutil à prisão de Moreira Franco, marido da sogra do parlamentar. Como vemos, não é um embate da Série A, jogo puro de várzea. E aí não há como evitar a queda da Bolsa e a subida desenfreada do dólar, clima de areia movediça para qualquer ação que supere o marasmo.
Afinidades geopolíticas
Num estudo sobre “cristianismo e marxismo” numa Semana de Estudos Jurídicos em 1954 em Curitiba o acadêmico Lamartine Correia Lira defendeu a tese de que ao Brasil no conflito mundial não haveria alternativa se não a de alinhar-se ao Ocidente. Foi o suficiente para que formássemos uma barragem para contrapô-lo em plenário. Lamartine, que mais tarde seria um dos nomes mais densos da esquerda, orador brilhante, encarou a bateria. Esse alinhamento foi consagrado com sangue na campanha dos nossos pracinhas na Itália.
Consta que o dublê de militar e diplomata Vernon Walters, que dirigiria a CIA e que era oficial de ligação com nossas tropas na Europa, veio a Curitiba visitar o comandante da 5ª Região, que era o “tenentista” Cordeiro de Farias, e debater a montagem no Brasil da ESG, Escola Superior de Guerra, na sustentação ideológica da dinâmica democrática ocidental. Atribui-se à CIA e ao seu dirigente papel chave na intervenção de 1964, inclusive nas famosas marchas com Deus e a Família pela Liberdade que configuraram o sinal popular e civil para a derrubada de Jango e a entronização da ditadura e com ela os anos de chumbo.
Cordeiro de Farias e Nelson de Mello, generais da reserva, estiveram aqui, no pipocar dos eventos, para persuadir Ney Braga, governador, que já estava com a conspiração desde o momento em que numa celebração contra o “livro único” lançou-o ao chão do alto do Palácio Iguaçu. Ney era destaque provincial entre os “pombos”, grupo ideológico ligado a Castelo Branco e Geisel, e oposto aos falcões da linha duríssima. O governador paranaense teve peito em convenção regional da Aliança Renovadora Nacional, Arena, de enfrentar Costa e Silva e inclusive sair à frente, o que lhe causaria dissabores futuros.
Folclore
Nosso presidente, no Chile, deu mancada diplomática ao elogiar Pinochet, que lá não é pessoa grata, mesmo para um dirigente liberal, à direita, como Piñera. Certamente não se ousa, apesar do racha ideológico no convívio político, em festejar, no país, por exemplo, a queda de Allende.


