Bichos e animais do imaginário
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 10 de julho de 2017
Marcos Losnak<br> Especial para a FOLHA 

Ele tem quatro metros de altura. Só pelo tamanho já assusta. Para piorar, tem cara mau, corpo todo peludão, braços compridos, mãos enormes e dentes extremamente afiados.
Conhecido como Arranca-Língua, esse animal começou a ser visto no Brasil a partir das primeiras décadas do século 1920. Sempre vagando por fazendas de gado de várias regiões do País, principalmente pelos pastos da região Centro-Oeste.
Parecido com um macacão tipo King Kong, sua grande diversão consiste em atacar rebanhos de gado. Sem dó, nem pena, arranca apenas a língua dos animais. Deixa todo o resto do corpo intacto, desfalecido ou morto.
O Arranca-Língua, também conhecido como Come-Língua, não ataca os seres humanos. Sua ação primordial está em, nas noites de lua cheia, arrancar a língua de bois e vacas. Apesar de não atacar pessoas, ninguém deseja trombar com um bicho desses no meio da noite.
Esse animal que povoa o imaginário das tradições populares brasileiras está entre os bichos retratados em "O Uirapuru e Outros Animais Incríveis do Folclore Brasileiro", livro infantojuvenil da educadora Januária Cristina Alves.
Lançado pela editora FTD com ilustrações de Berje, a obra apresenta alguns dos bichos imaginários do folclore brasileiro. Alguns deles bem conhecidos, como o Bumba Meu Boi, o Uirapiru, o Hipocampo e o Tutu Marambá. Outros menos conhecidos, mais regionalizados, como a Onça da Mão Torta, o Arranca-Língua e o Teiniaguá.
A Onça da Mão Torta, por exemplo, que habita a região de Goiás, é um bicho de corpo fechado. Nenhuma arma pode machucá-lo. Balas simplesmente entram e saem de seu corpo sem provocar nenhum ferimento. Nenhum caçador consegue matar esse tipo de onça. Ela possui o dobro do tamanho de uma onça-pintada e uma das patas dianteiras voltada para trás (como o Curupira).
Em "O Uirapuru e Outros Animais Incríveis do Folclore Brasileiro", Januária Cristina Alves tem o cuidado de revelar as possíveis origens dos bichos folclóricos. De como uma lenda vira fato e como um fato vira lenda.
No caso do Arranca-Língua, depois de muito tempo, descobriu-se que os bois e as vacas mortas com a língua arrancada que apareciam no pasto não eram exatamente vítimas do assustador macacão gigante. O gado era vítima de uma doença chamada febre aftosa.
O fato é que a aftosa destruía o tecido da língua dos bois. Completamente enfraquecida, a língua simplesmente caía, como se tivesse sido arrancada. E arrancada por um bicho muito gigantesco e assustador.
O fato virou lenda.
E a lenda virou explicação fantástica.

Serviço:
"O Uirapuru e Outros Animais Incríveis do Folclore Brasileiro"
Autora Januária Cristina Alves
Ilustrações Berje
Posfácio Ana Miranda
Editora FTD
Páginas 48
Quanto R$ 39


