Imagem ilustrativa da imagem O encontro de dois mundos
| Foto: Fotos: Reprodução/Divulgação


Trata-se de um enredo presente em dezenas de lendas fantásticas. Um jovem encontra uma linda moça pelo caminho. Rapidamente os dois se apaixonam e realizam juras de amor eterno. Após algum tempo juntos, um belo dia a moça desaparece no ar. Ao procurá-la em todos os lugares, o rapaz descobre que a amada na verdade reside no cemitério, falecida há muito tempo atrás.

A mais antiga história da mulher que volta do mundo dos mortos para viver um grande amor terreno parece ter sido criada pelo poeta e escritor coreano Kim Si-Seup. Em meados do século 15. A narrativa integra o volume "Contos da Tartaruga Dourada" que acaba de ser lançado pela editora Estação Liberdade.

Trata-se da primeira edição brasileira de uma obra que é considerada a primeira prosa ficcional da literatura coreana. Escrita na década de 1470, está repleta de significações por representar um período de transição cultural, política e religiosa da Dinastia Joeon (O Reino das Manhãs Claras). O budismo, por exemplo, estava sendo substituído pelo confucionismo.

É também nessa época que é criado o alfabeto fonético coreano (hangeul) pelo Grande Rei Sejong. No ano de 1443. Até então os coreanos faziam uso dos ideogramas chineses na escrita. Os clássicos textos chineses também eram a base da literatura do reino.

Os contos de Kim Si-Seup possuem uma forte aproximação com a literatura fantástica. Os personagens das narrativas são homens que travam contato com divindades ou espíritos de falecidos. As divindades descem do céu para conviver, por breves períodos, com os mortais.
Toda a intermediação entre o mundo dos homens e o mundo dos deuses, como também entre o mundo dos vivos e o mundo dos mortos, é realizada através da poesia. A poesia se apresenta como a grande linguagem de comunicação entre os diferentes mundos. Os próprios diálogos assumem a forma poética numa clara exaltação do gênero como nobreza estética.

Os contos promovem o encontro entre o real e o irreal, entre o concreto e o onírico. Um encontro que altera a percepção da existência humana e das condições sociais. Nas palavras da tradutora, Yun Jung Im, "os protagonistas não se ajustam aos padrões socialmente desejáveis, para quem a vida nega os desejos, mas acabam passando por experiências nada ordinárias com seres de outros mundos, que vêm a recompensar seus infortúnios terrenos".

Ainda para a tradutora, professora de Literatura Coreana na Universidade de São Paulo, são histórias de superação "em que os personagens desbravam os próprios caminhos em meio aos obstáculos para a realização de seus desejos".

Nascido numa família de nobres, Kim Si-Seup (1435 – 1493) tinha como destino seguir carreira de burocrata, mas após uma série de contratempos tornou-se um peregrino budista. Autodenominava-se como "O Forasteiro" para expressar sua contínua sensação de desajustes: "Alguém que tentava encaixar uma estaca quadrada em um buraco redondo".

Considerado um monge budista de coração profundamente confuciano, Kim Si-Seup carregou consigo a fama de maluco. Durante suas peregrinações, era capaz dos atos mais bizarros. Segundo a lenda, chegou a literalmente mergulhar de cabeça num barril de merda.

Após anos de peregrinação, construiu uma cabana na Montanha da Tartaruga Dourada onde viveu em isolamento durante sete anos. Durante essa vivência, na década de 1470, Kim Si-Seup teria escritos as histórias que integram "Contos da Tartaruga Dourada".

Após duas décadas de sua morte, ocorrida em 1493, seus escritos começaram a ser compilados. "Contos da Tartaruga Dourada" permaneceu como obra conhecida da população até cair no esquecimento ao longo dos séculos. Impressões em xilogravura do livro foram descobertas no Japão e na China, impulsionando novas edições modernas no século 20.

SERVIÇO

"Contos da Tartaruga Dourada"
Autor – Kim Si-Seup
Editora – Estação Liberdade
Tradução, Notas e Posfácio – Yun Jung Im
Páginas – 176
Quanto – R$ 36

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Fragmento
Depois de queimar incenso no templo, no caminho de volta
Joguei uma moeda às escondidas – que será meu par?
Quando flores desabrocham na primavera e sobe a lua de outono, coagula em mim uma tristeza sem fim
Quiçá poderei derretê-la com um copo de bebida, sentada frente a frente com o barril?

O orvalho da madrugada molha a face rosada da flor de pessegueiro
As borboletas não chegam a esse vale profundo, nem mesmo na mais alta primavera
Mas eis que me alegro subitamente, pois o espelho de cobre partido se junta outra vez na vizinhança
Faço então uma nova canção e verto bebida no cálice ouro

Todo ano a andorinha-das-chaminés dança ao vento da primavera
Mas como é vão este amor que ferve por dentro
Quanta inveja daquela flor de lótus que se banha nesta noite profunda
Em companhia da folha que a sustenta na superfície do lago
(...)

(Conto "O Jogo de Varetas no Templo das Mil Fortunas", que integra o livro "Contos da Tartaruga Dourada", de Kim Si-Seup)

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