LEITURA - As grandes coisas dos pequenos dias
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 27 de junho de 2017
Marcos Losnak<br>Especial para a Folha2 

Eliminar as fronteiras entre os gêneros literários parece ser o desejo ardente dos escritores contemporâneos. Embaralhar as coisas em busca de uma linguagem inovadora se apresenta como o grande desafio do verbo.
Em seu livro de estréia, "Enjoei do Vermelho", o jornalista paranaense Cristian Aguazo promove a junção de dois gêneros literários: o conto e a crônica. As fronteiras são eliminadas com as palavras pisando em ambos os territórios, cruzando e recruzando territórios.
Lançado pela editora Atrito Arte, o volume traz 14 breves histórias que procuram a compreensão das relações humanas em suas contradições, dúvidas e incertezas.
Nas narrativas de "Enjoei do Vermelho", Cristian Aguazo demonstra que é nos pequenos atos do cotidiano, sempre repletos de incertezas, que pode ser encontrado o elixir para a longa jornada de tocar a vida em frente.
A seguir Cristian Aguazo fala sobre o livro e sobre o desafio de unir dois gêneros literários.
Em "Enjoei do Vermelho" você promove a junção de dois gêneros literários, o conto e a crônica. Qual a sua intenção em promover essa junção?
Eu atuo no jornalismo há mais de 10 anos e nesse tempo eu tive muito contato com a crônica, que é um gênero que exercitei ao longo destes anos. Também sempre gostei de contos e nos últimos anos me interessei muito por Raymond Carver, Juan Rulfo e Sam Shepard, todos eles muito concisos, mesmo para os padrões das narrativas curtas. Profundamente influenciado por estes autores, cujas temáticas me são caras, fui levado a escrever contos. O que saiu foi algo diferente do que eu me propus, muito atravessado pelo estilo da crônica e até pela poesia, que é o gênero que escrevo há mais tempo. A verdade é que eu simplesmente não conseguia elaborar uma trama mais complexa, pelo menos nada que me agradasse. Então saía desse jeito de "contrônica". Essa mistura de gêneros, num primeiro momento involuntária, chamou a atenção de alguns amigos, que acharam que eu havia encontrado uma dicção mais autoral, mais particular. A partir daí intensifiquei as tentativas, passei a racionalizar esse processo, atravessar fronteiras. O objetivo foi embaralhar os gêneros. Vale mencionar que essa junção também dialoga com minhas raízes. Minha família vive praticamente toda ela na fronteira. Resido em Guaíra, que faz fronteira com Paraguai e Mato Grosso do Sul. Cruzar e recruzar fronteiras é algo típico dos fronteiriços. Eliminar as alfândegas do gênero me pareceu uma proposta tentadora, desta vez num plano mais formal, estrutural.
Nas histórias de "Enjoei do Vermelho" há um tipo sinceridade exemplar, tanto na abordagem dos temas quanto na linguagem adotada. De onde vem tamanha sinceridade?
Não me recordo direito, mas se não me engano Umberto Eco elencou a sinceridade como um recurso imprescindível na busca por um bom texto. Para mim sinceridade vem do próprio desejo de exercer na ficção o que muitas vezes nos é negado na vida real. Vem do desejo, e da necessidade, de compartilhar sentimentos sem filtros. Uma água que vaza de uma represa não flui de forma tranquila. Irrompe. Não acredito em literatura que não tenha essa pegada.
E como você trabalha essa sinceridade na escrita, como matéria da literatura?
Utilizo como uma possibilidade de arrancar emoção de verdade, algo que saia da alma, que me mantenha honesto comigo mesmo e com a ideia de escritor. É a sinceridade que pode fazer alguém se identificar de fato com um livro, com um conto, com um poema, com uma letra de música.
As relações humanas, ou a compreensão das relações humanas, parecem ser a temática central dos textos do livro. O que essas relações podem revelar?
Essas relações revelam a própria opacidade da vida. Revelam o quão difícil é vislumbrar a realidade e como estamos imersos em nossas próprias ficções. Em como carregamos culpa. Em como somos tocados por pequenas epifanias e do quanto somos capazes de bondades e crueldades. Tentar compreender é algo inerente aos humanos. E essa busca é interminável.
A narrativa que dá título ao livro foi criada a partir de uma outra narrativa. Como é esse processo de intertextualidade?
Eu estudei alguns anos uma disciplina chamada Análise do Discurso, que tem inspiração no conceito de discurso de Michel Foucault. Uma noção básica desta teoria é a de que "os sujeitos são atravessados por discursos". A própria noção de originalidade é colocada em xeque quando se entende esta teoria, pois somos basicamente um emaranhado de discursos alheios. É possível identificar em nossos discursos vozes que revelam nossos traços ideológicos, filiação social, etc. Essa heterogeneidade toda é a nossa identidade. Ou seja, o eu na verdade são muitos. Então, a intertextualidade surge para mim de forma bastante natural porque dialogo com muitos autores. Mas precisa surgir naturalmente, sem forçar a barra.

Serviço:
"Enjoei do Vermelho"
Autor Cristian Aguazo
Editora Atrito Arte
Páginas 92
Quanto R$ 20
Fragmento
Primeiro foi Carvalho, vítima de um infarto fulminante. Depois Valério, de cirrose (logo ele que se orgulhava de tomar apenas cerveja).
Por último, o senhor Albuquerque, assassinado até hoje não se sabe por que e nem por quem. Só sei que as três mortes marcaram profundamente João Antônio, que compartilhava o tradicional bar do Adriano com um punhado de aposentados bêbados inveterados.
Era rotina. Todos os dias os amigos se reuniam depois das seis para tomar um aperitivo.
O curto intervalo de tempo entre as mortes de Valério, Carvalho e Albuquerque, porém, impressionaram muito o velho Antônio.
Vou dar um tempo do Adriano, ele dizia, achando que a morte rondava o velho grupo de amigos.
Depois desses episódios e da breve reflexão, João Antônio, então com 60 anos, resolveu parar de beber. Depois, parou também de fumar. E com isso se desvencilhou consequentemente das confusões em casa e na rua. Conseguiu até mesmo amar sua velha esposa sem que o propósito exigisse paciência ou esforço.
Não vou dizer aqui que após essas decisões tudo foi um mar de rosas. Não foi. Mas Dona Rosa, que já havia desistido do marido, pôde ajudar a criar os netos num ambiente sereno.
E foi assim que ela, que amava os filhos e os netos mais que tudo, pôde amar por mais 20 anos e de verdade aquele homem com quem fora casada a vida inteira.
(Conto "Resolveu Viver Depois das Mortes", que integra o livro "Enjoei do Vermelho", de Cristian Aguazo)


