Ilustração: Desenho da edição húngara original de 1906
Ilustração: Desenho da edição húngara original de 1906 | Foto: Fotos: Reprodução


Uma batalha é sempre uma batalha. Seja no gramado do Estádio do Maracanã ou no campinho de terra batida do Morro do Carrapato. Uma guerra é sempre uma guerra. Seja com mísseis intercontinentais ou com estilingue e mamona.

Uma das batalhas mais lendárias da literatura não foi travada entre soldados esculpidos em treinamentos. Nem foi travada entre duas potências mundiais com os mais destrutivos armamentos. Na verdade foi travada entre dois grupos de moleques na disputa por um terreno baldio.

Essa guerra é narrada em "Os Meninos da Rua Paulo", romance do escritor húngaro Ferenc Molnár (1988 – 1952). A obra, publicada originalmente em 1906, tornou-se um clássico da literatura infantojuvenil traduzida para mais de 30 línguas.

A primeira edição no Brasil apareceu em 1952, com tradução realizada diretamente do húngaro pelo literato Paulo Rónai. Ao longo das décadas recebeu dezenas de reedições, tornando-se uma obra que introduziu várias gerações ao universo da literatura.

"Os Meninos da Rua Paulo" acaba de ganhar uma nova edição pelas mãos de editora Companhia das Letras. O volume resgata a tradução realizada por Paulo Rónai devidamente revisada pelo filólogo Aurélio Buarque de Holanda (1910 – 1989).

O romance narra a história de um grupos de garotos que, na década de 1880, da cidade de Budapeste, cria uma sociedade secreta intitulada Sociedade do Betume. São meninos que estudam na mesma escola, moram no mesmo bairro, e toda tarde se encontram num terreno baldio situado na Rua Paulo para jogar ‘pela’ (antigo jogo com raquete e bola que deu origem ao tênis).

Ferenc Molnár nasceu em 1878, em Budapeste, escreveu dezenas de textos teatrais, alguns deles adaptados para o cinema como "Lilion", filmado por Fritz Lang em 1933
Ferenc Molnár nasceu em 1878, em Budapeste, escreveu dezenas de textos teatrais, alguns deles adaptados para o cinema como "Lilion", filmado por Fritz Lang em 1933



A Sociedade do Betume está estruturada como um exército militar, com hierarquias bem definidas. Mas o detalhe está no fato de que todas as decisões são tomadas de maneira democrática através do voto. Apesar de terem entre 11 e 13 anos, os meninos mantêm uma profunda vida paralela no terreno baldio, longe da escola, longe da família e, principalmente, longe dos adultos.

Os problemas começam quando outra sociedade de garotos, os Camisas Vermelhas, ameaça invadir o terreno baldio dos meninos da Rua Paulo para também poderem jogar ‘pela’. Uma guerra então é declarada seguindo os princípios de honra mais nobres. A batalha é toda regida pelo respeito ao inimigo, ao valor da palavra, à coragem, à lealdade, à amizade, à verdade e ao horror à traição.

O imaginário dos meninos, de ambos os batalhões, desenha uma romantização da guerra, do conflito, da disputa. Desconhecendo os horrores das guerras do mundo adulto, cultivam sentimentos de honra que experimentaram sentimentalmente. E claro que ninguém sai ileso de uma guerra, muito menos meninos. Para eles a grande batalha funciona como um rito de passagem para o mundo adulto. Um rito onde mesmo ganhando, todos saem perdendo alguma coisa. No caso dos meninos da Rua Paulo, saem perdendo a inocência.

Ferenc Molnár nasceu em 1878, na cidade de Budapeste, quando a Hungria ainda integrava o Império Austro-Húngaro. Dramaturgo, escreveu dezenas de textos teatrais, alguns deles adaptados para o cinema como "Lilion", filmado por Fritz Lang em 1933. Com o começo da Segunda Guerra Mundial, Ferenc Molnár emigrou para os Estados Unidos fugindo da perseguição dos judeus, onde faleceu em 1952.

A coroa de grande personagem de "Os Meninos da Rua Paulo" recai sobre a cabeça de Nemecsek, o ‘pequeno loirinho’, aquele com menor idade dos integrantes da Sociedade do Betume. O único que permanece como soldado raso ao lado de generais, capitães e tenentes. O único, apesar de tremer de medo, capaz das ações mais verdadeiras. O único que salva a pátria e paga com a própria vida com a ingenuidade sorrindo em seus lábios.

Serviço:
"Os Meninos da Rua Paulo"
Autor – Ferenc Molnár
Editora – Companhia das Letras
Tradução e prefácio – Paulo Rónai
Revisão da tradução – Aurélio Buarque de Holanda
Posfácios – Nelson Ascher e Michel Laub
Páginas – 272
Quanto – R$ 39,90 e R$ 27,90 (ebook)

Imagem ilustrativa da imagem LEITURA - A última das batalhas


Fragmento

Era um dia quente de março, as janelas estavam escancaradas e, nas asas da fresca brisa primaveril, a música penetrou na aula. A pianola tocava uma alegre canção húngara, transformando-a numa espécie de marchinha, emprestando-lhe um caráter tão estrondoso, tão vienense, que deu a toda a turma uma vontade de sorrir que muitos não souberam conter. A chama verde que oscilava alegre no bico de Bunsen, agora só atraía os olhares de alguns meninos dos primeiros bancos. Os outros olhavam pelas janelas para o mundo lá de fora, onde se viam os telhados dos casebres vizinhos, e, ao longe, rebrilhando à luz dourada do meio-dia, a torre da igreja, em cujo mostrador o ponteiro grande, reconfortador, se aproximava do xii. Voltada para a janela, a atenção dos meninos captava, além da música, outros sons que nada tinham que ver com a aula. Condutores do bondinho de burro trombeteavam, e num dos quintais uma criada cantarolava uma melodia totalmente diversa da tocada pela pianola.

A turma começava a mexer-se. Uns punham-se a procurar os livros na gaveta da carteira; outros, os mais ordeiros, limpavam as penas. Boka fechava o pequeno tinteiro de bolso, recoberto de couro vermelho, cujo mecanismo engenhoso não deixava vazar a tinta a não ser no bolso do estudante; Csele juntava as folhas soltas que para ele substituíam os manuais, pois era um janota que, em vez de sobraçar uma biblioteca inteira como os demais, trazia apenas as folhas indispensáveis, e essas mesmo cuidadosamente distribuídas por todos os bolsos de fora e de dentro; Csónakos, na última carteira, soltava bocejos dignos de um hipopótamo entediado; Weiss revirava um dos bolsos, limpando-o das migalhas do pãozinho que dali retirara às escondidas, para mastigá-las aos poucos no decorrer das três últimas aulas; Geréb punha-se a arrastar os pés, ruidosamente, debaixo do banco, como quem faz menção de levantar-se; Barabás, enfim, sem o menor constrangimento, desdobrava sobre os joelhos o encerado para nele arrumar os livros conforme o tamanho, e apertou-os vigorosamente com uma correia, produzindo assim um estalo forte da carteira, que o fez corar de espanto. Numa palavra, todos se preparavam para sair, salvo o professor, o qual não parecia tomar conhecimento de que, ao cabo de cinco minutos, tudo estaria acabado.

(Fragmento de "Os Meninos da Rua Paulo", de Ferenc Molnár)

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