Canibalismo gourmet
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 04 de janeiro de 2017
Marcos Losnak<br>Especial para a Folha 2 

"Comida não tem nada a ver com razão. Muito menos com consciência. Porque você come carne de vaca, por exemplo? Porque foi criado assim! É uma realidade cotidiana! A carne satisfaz, tem sabor e aparência agradáveis. Logo, comemos! Com um pouquinho de esforço, em duas gerações comer carne humana vai ser como devorar ovos e bacon pela manhã."
A afirmação acima pertence a um dos personagens de "Jantar Secreto", novo romance do escritor carioca Raphael Montes lançando pela editora Companhia das Letras. A obra narra, com uma boa dose de humor negro, a história de quatro jovens amigos que resolvem criar um novo movimento culinário para levantar uma grana: o canibalismo gourmet.
Tudo começa quando Dante, Hugo, Leitão e Miguel deixam uma pequena cidade do interior do Paraná para fazerem faculdade no Rio de Janeiro. Os quatro montam uma república num apartamento em Copacabana para dividir as despesas.
Após concluírem os estudos, Dante (administração), Hugo (gastronomia), Leitão (ciência da computação) e Miguel (medicina) assistem o sonho de sucesso profissional, após um curso universitário, caminhar para o brejo. A crise econômica faz com que todos eles passem a viver de bicos e trabalhos maus remunerados.
Com dificuldade em pagarem o aluguel, os quatro, utilizando suas especialidades profissionais, entram de cabeça numa ideia absurda: promover um sigiloso jantar com carne humana no cardápio. O objetivo era cobrar um alto valor dos comensais, pagar as dívidas e voltar à vida normal.
O detalhe é que a experiência de empreendedorismo se revela um sucesso. Aparece muita gente abonada disposta a pagar altos valores para provar, secretamente, carne humana com glamour. E assim os jantares se multiplicam e esbarram num problema básico: a aquisição de matéria-prima. A coisa vai virando uma bola de neve e quando os quatro jovens empreendedores abrem os olhos, estão numa confusão infernal, imersos numa espiral de atrocidades sem retorno.
Raphael Montes, nascido em 1990, geralmente é descrito como o mais jovem e popular escritor de literatura policial brasileira. Seu primeiro romance, "Suicidas", apareceu em 2012. Depois vieram "Dias Perfeitos" (2014) e o volume de contos "O Vilarejo" (2015). Na realidade a literatura de Raphael Montes utiliza alguns elementos do romance policial para narrar histórias que envolvem o terror, o pop, o bizarro, o pulp, o horror e outras coisas mais.
No caso de "Jantar Secreto", a trama policial aparece diluída ao longo da narrativa. O clima investigativo dos crimes (para a obtenção de carne humana), aparece apenas na tentativa de Dante, o narrador e participante do negócio, em descobrir quem realmente é o chefe na organização criminosa. O grande mistério reside em quem realmente manda no negócio, não em suas implicações.
Alguns leitores (vegetarianos, carnívoros ou veganos) podem estar sujeitos a náuseas em algumas descrições presentes no livro. Isso porque Raphael Montes desloca todos os procedimentos (do abate, passando pela carneação, pela separação dos cortes e cozimento) da cozinha normal, aquela que utiliza carnes de aves, bovinos, suínos e ovinos, para a cozinha de carne humana. Tudo é precisamente igual, a única diferenciação recai sobre a moralidade.
O crime, propriamente dito, não reside sobre o canibalismo em si, mas sobre todo o processo de obtenção de carne humana para alimentação de ricos e respeitados membros da sociedade brasileira. Nesse contexto, os fatores econômicos e sociais são determinantes. O papel de fornecedores de carne recai cobre pobres, mendigos, órfãos, negros e moradores de rua.
Lançado no mês passado, "Jantar Secreto" já teve os direitos comprados para o cinema pela RT Faatures num contrato milionário.

Serviço:
"Jantar Secreto"
Autor Raphael Montes
Editora Companhia das Letras
Páginas 366
Quanto R$ 39,90
Fragmento:
Hugo vestiu o avental e a luva e retirou do forno a travessa fumegante para finalizar a carne já frita. Com uma concha, regou os cortes com uma redução de cor branca, pontuada de pedacinhos esverdeados de casca de limão e laranja. Enfeitou os pratos com cubos de maçã verde assada e restos de limão-siciliano. Então espetou uma fatia pequena com um garfo e me estendeu.
"Quer provar?"
Olhei para aquele pedaço de carne humana a poucos centímetros de mim, com um cheiro maravilhoso de gordura derretida, notas de vodca e frutas cítricas que me faziam ter vontade de devorá-lo. Cheguei a abrir a boca para dizer "sim", mas me lembrei dos doentes na fila do hospital público, do corpo sujo e ensanguentado do homem, da cabeça sobre a mesa, das vísceras, do sangue jorrando no balde e da língua.
"Não, obrigado", respondi, enquanto pensava na sorte que era não saber de onde vinham a carne de boi, a de porco, o hambúrguer, a salsicha e o frango assado que eu comia todos os dias.
Fragmento de "Jantar Secreto", de Raphael Montes


