Edna Almodin é médica, especialista em oftalmologia, cursou MBA e mestrado em administração em oftalmologia, primeira e única presidente da Sociedade Brasileira em Administração em Oftalmologia, presidente do Hospital Almodin

1) Por que a senhora decidiu não atuar como professora e pesquisadora em uma universidade para ter ao menos parte dos recursos necessários para desenvolver inovação, como muitos médicos o fazem?

Porque existem muitas burocracias que atrasam os processos e muitas competições entre participantes que atrasam resultados. As máquinas que compramos são necessárias ao meu trabalho e teria que comprá-las de qualquer maneira para exercer a medicina que sempre sonhei e almejei. Medicina é algo maior que não devemos buscar dinheiro, e sim qualidade de serviço, dinheiro deve ser uma consequência do nosso trabalho. A vida me mostrou isso. Sozinhos e vindos de uma cidade do interior cheguei ao cargo de maior respeito na oftalmologia: 1ª mulher Presidente da Sociedade Brasileira de Oftalmologia (SBO) em 100 anos. Construi um hospital para minhas filhas seguirem nossos pacientes, não os deixando sem referências. Nunca pensei que seria esse o resultado da minha medicina e estou feliz em mudar a vida de milhares de pacientes por nós operados.

2) Embora não seja professora universitária, a senhora ministra cursos e palestras para médicos. De acordo com informações recentes, muitos dos novos médicos estão se formando sem competências necessárias. Quais seriam as causas disso e como melhorar?

O Brasil é um dos países com o maior número de faculdades de medicina no mundo, frequentemente ocupando o segundo lugar, atrás apenas da Índia, e superando nações como China e Estados Unidos. A rápida expansão nas últimas décadas resultou em centenas de escolas, embora a distribuição e qualidade sejam discutidas. Vimos agora vários alunos com notas zero nas provas de qualificação de nossas faculdades. E estes médicos que cuidarão da nossa saúde e das pessoas que amamos no futuro. O Conselho Federal de Medicina tem insistido com isso e com uma prova igual a OAB para classificar os alunos e não somente as faculdades, mas isso é um problema de condutas políticas.

3) O que é mais difícil no Brasil: alta carga de impostos, dificuldade de contratar mão de obra especializada, burocracia, ou uma mudança de mentalidade de gestores públicos que criam políticas públicas de fomento e desenvolvimento de inovação?

Todas as questões por você levantadas são importantes nas dificuldades de pesquisas no país. A carga tributária sobre salários pagos para o pessoal de apoio, e aquisição de máquinas e insumos médicos são altos. Assim como também os insumos e cirurgias que devemos dar gratuitos aos pacientes de pesquisas. Atualmente, temos que contratar algumas pessoas de apoio básico, pagando-os para iniciar com treinamento, pois saem de escolas com diplomas de enfermeiros ou de cursos técnicos em enfermagem muitas vezes sem conhecimento básico. Gastos contínuos com recursos de treinamentos são repetitivos e funcionários de trabalho básico se tornam rotatórios em parar de trabalhar porque recebem políticas públicas de fomento ao desemprego. Mas a burocracia em pesquisas também é um dos preocupantes. Neste momento estamos com um projeto de pesquisa do Hospital na Anvisa por mais de um ano. O Brasil tem tudo para ser um país de primeiro mundo, pois mesmo com as dificuldades somos um povo de trabalhadores que aprendemos a superar dificuldades, mas, esperamos que os próximos gestores criem políticas públicas para aumentar o desenvolvimento de inovações. O Brasil merece.

*Lucas V. de Araujo: PhD em Comunicação e Inovação (USP).

Jornalista Câmara de Mandaguari, Professor UEL, parecerista internacional e mentor de startups.

@professorlucasaraujo (Instagram) @professorlucas1 (Twitter)

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