Quem tem boa memória, se lembrou de uma cena lamentável recentemente com os bloqueios dos caminhoneiros em todo o país. Passados apenas quatro anos, vivemos novamente cenas preocupantes com desabastecimento de itens de primeira necessidade, como remédios e combustíveis.

Imagem ilustrativa da imagem Bloqueios dos caminhoneiros e a chegada da inovação
| Foto: Gustavo Carneiro

Assim como ocorreu em 2018, novamente nos questionamos sobre a dependência excessiva do nosso país pelo transporte rodoviário. Temo que mais uma vez fiquemos apenas na indignação e poucas ou nenhuma ação concreta seja tomada.

Mesmo países em desenvolvimento como o Brasil têm uma realidade melhor que a nossa há muitos anos. Um bom exemplo é a Índia, com pouco mais de um terço da extensão territorial brasileira, mas com um sistema de transporte de cargas e pessoas baseado na linha férrea e um agravante: estão prestes a ultrapassar a China e se tornar o país mais populoso do planeta. Com quase sete vezes a população brasileira e um poderio econômico semelhante ao nosso (Índia e Brasil estão as dez maiores economias do mundo), é de se questionar por que eles conseguiram e nós não mudar nossos meios de transporte.

O Brasil já teve um transporte ferroviário melhor. Não podemos nos esquecer que o Norte do Paraná foi colonizado por meio de ferrovias, as quais eram o único meio de locomoção de pessoas e cargas porque não existiam rodovias. A Rodovia do Café, atual BR-367 e BR-277, que liga o Norte do Paraná a Curitiba, foi asfaltada em 1965. Tem esse nome porque foi fundamental para o escoamento do grão para o Porto de Paranaguá. Hoje o mesmo porto recebe outros grãos: soja e milho.

O meu leitor impaciente perguntaria: “Qual é a novidade disso tudo?”. Novidade é o foco aqui, mas peço que as pessoas pensem nesses aspectos à luz da inovação. Por que passamos por problemas até de desabastecimento se temos novas tecnologias a cada dia? Carros voadores devem chegar nos próximos anos e dependemos de caminhões, muitas vezes em péssimo estado de conservação, para termos comida em casa. Que ironia.

O fato de a inovação existir não significa que em breve estará ao nosso alcance. Depende da vontade de vários atores. Um bom exemplo é a tecnologia para veículos elétricos. A base dela foi criada há mais de um século! Foram necessárias sucessivas crises energéticas, conflitos internacionais com os principais produtores de petróleo do mundo e o aquecimento global para que nações, empresas e pessoas aderissem à tecnologia dos veículos elétricos.

Não sou adepto de teorias da conspiração e tampouco de acreditar em planos diabólicos. Contudo, é nítida a interferência de fatores políticos, notadamente em forma de lobby, e de interesses escusos de corporações em postergar a chegada da inovação.

Certamente essa não é a única e nem a melhor explicação para o problema crônico de transporte no Brasil, porém vale uma reflexão sobre as razões que impedem a mudança positiva em nosso país. Torço para que não seja preciso ocorrer novos bloqueios e todos os problemas deles decorrentes para que tomemos atitudes em prol da inovação ;)

*Lucas V. de Araujo: PhD e pós-doutor em Comunicação e Inovação (USP). Professor da Universidade Estadual de Londrina (UEL), parecerista internacional e mentor Founder Institute. Autor de “Inovação em Comunicação no Brasil”, pioneiro na área. - A opinião do colunista não reflete, necessariamente, a da Folha de Londrina

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