Vamos celebrar os 54 anos de All Things Must Pass
Álbum triplo e ícone da era pós-Beatles continua a inspirar as novas gerações
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 27 de novembro de 2024
Álbum triplo e ícone da era pós-Beatles continua a inspirar as novas gerações
Silvio Demétrio / Especial para a FOLHA 

O dia 27 de novembro sempre vai ser uma efeméride especial e a culpa é do George Harrison.
A maior banda de todos os tempos tinha deixado de existir e All Things Must Pass, um disco triplo com muito material que os Beatles tinham represado, é lançado nesse dia como um monumento à transitoriedade de tudo nesse mundo.
A rapaziada mais nova não tem ideia de como era quando ainda música rimava com vinil. Alguns discos eram como emblemas pelos quais se reconheciam afinidades espontâneas. Digo isso lembrando de um dia qualquer quando eu devia ter uns 20 anos e andava despreocupadamente pela Ru XV em Curitiba com esse disco debaixo do braço. Na verdade era o All Things Must Pass e o Concerto de Bangladesh, ambos discos triplos e raros naqueles dias perdidos do final dos anos 80. Um completo desconhecido me para numa esquina pedindo para ver os dois discos juntos assim, passeando debaixo do braço esquerdo de alguém. Às vezes a gente fazia amigos assim, por uma afinidade despreocupada.
Foi em novembro de 1970 que George Harrison lançou All Things Must Pass, um álbum que não apenas marcou sua emancipação musical, mas também definiu uma nova forma de pensar a relação entre criação artística e vida. Ele foi mais que um disco: foi um registro de aceitação e transformação, uma colcha de retalhos costurada com as angústias e esperanças de quem, ao deixar um lar desfeito, encontra um novo horizonte.
O título não poderia ser mais emblemático. “Tudo Passa” é uma frase simples, mas carregada de peso e sabedoria, tirada de um ensinamento budista que Harrison absorveu em sua jornada espiritual. Depois de anos como o “quiet Beatle”, uma figura à sombra de Lennon e McCartney, Harrison precisava que suas músicas fossem ouvidas por inteiro, sem o ruído das disputas internas da banda.
A história por trás de All Things Must Pass começa antes de sua gravação. Em janeiro de 1969, os Beatles estavam em um impasse criativo e emocional durante as tensas sessões do que se tornaria o álbum Let It Be. George apresentou algumas músicas naquela época — incluindo a faixa-título, “All Things Must Pass” —, mas elas foram ignoradas por Lennon e McCartney. Em um momento emblemático, Harrison comentou que tinha tantas músicas acumuladas que poderia lançar um álbum triplo. Era uma piada, mas que se tornaria profética.

UM SOM MONUMENTAL
Quando a banda finalmente se separou, George estava carregado de ideias. Ele havia acumulado uma quantidade impressionante de composições, algumas escritas ainda nos anos 60, como “Isn’t It a Pity”, rejeitada várias vezes pelos Beatles. Com a liberdade recém-descoberta, Harrison chamou o produtor Phil Spector para ajudar a moldar seu trabalho. Juntos, eles criaram um som monumental, que misturava o peso das camadas instrumentais com a profundidade emocional das letras.
As sessões de gravação de All Things Must Pass aconteceram na Friar Park, a mansão de Harrison em Henley-on-Thames, que ele havia comprado recentemente. A propriedade, com seus jardins vastos e atmosfera quase mística, tornou-se o cenário ideal para o álbum.
Entre os músicos que participaram estavam alguns dos maiores talentos da época: Eric Clapton trouxe sua guitarra inconfundível, enquanto a banda que mais tarde se tornaria o Derek and the Dominos formou a espinha dorsal do disco. Ringo Starr estava lá, assim como Billy Preston, Klaus Voormann e até Phil Collins, que tocou percussão em uma das faixas (embora sua participação tenha sido tão sutil que ficou esquecida por décadas).
Um dos momentos mais curiosos dessas gravações foi a criação de “Apple Scruffs”. A música, um agradecimento bem-humorado aos fãs que esperavam do lado de fora do estúdio da Apple, foi gravada de maneira quase improvisada, com George ao violão e uma harmônica que ele mesmo tocou.
Enquanto o álbum em geral se apoiava na grandiosidade das produções de Spector, esta faixa capturava a simplicidade do gesto que a inspirou. A canção que abriu o álbum ao mundo também abriu portas para debates. Inspirada pela devoção de Harrison ao movimento Hare Krishna, “My Sweet Lord” era um hino espiritual que misturava referências ao cristianismo e ao hinduísmo, com seu coro hipnótico de “Hare Krishna” e “Aleluia”. Era um chamado à transcendência, mas também um convite à comunhão universal. A música foi um sucesso avassalador, mas não sem controvérsias: Harrison foi acusado de plágio por suas semelhanças com “He’s So Fine”, de The Chiffons. Ele perdeu o processo, mas sua intenção original — criar uma ponte entre culturas e credos — continua brilhando na música até hoje. A faixa é um marco de aceitação. Inspirada pelos ensinamentos de Timothy Leary e pela filosofia budista, Harrison transforma a impermanência em poesia. Há uma leveza na melodia que contrasta com o peso da mensagem, como se dissesse que a mudança, embora dolorosa, é inevitavelmente bela.
Talvez a música ainda mais dolorosa do álbum seja “Isn’t It a Pity” - um lamento sobre as desconexões humanas. Ela nasceu de um período de frustração nos Beatles, mas sua mensagem transcende o contexto imediato. É uma reflexão sobre como somos rápidos em machucar uns aos outros, esquecendo a beleza do que poderíamos construir juntos.
“Wah-Wah” é tanto um jogo de palavras com o som de uma guitarra quanto um termo para irritação e frustração. É um desabafo energético que, mesmo com seu tom sombrio, encontra força na explosão instrumental que o acompanha. Em Beware of Darkness Harrison alerta contra as forças externas e internas que podem desviar a alma. A música tem um tom quase profético, com sua melodia sombria e a letra que soa como um conselho de amigo.
Ballad of Sir Frankie Crisp (Let It Roll) é uma homenagem ao antigo proprietário da Friar Park, Sir Frankie Crisp, esta música é um passeio pela mansão e seus mistérios. É como se Harrison usasse a casa como metáfora para sua própria jornada: um lugar cheio de história, sombras e luz.
All Things Must Pass é um álbum profundamente pessoal mas ao mesmo tempo também é universal. Ele reflete a busca de Harrison por paz interior após a turbulência dos Beatles, mas suas mensagens de amor, espiritualidade e aceitação falam a todos. O disco triplo é um ciclo: começa com um pedido de comunhão em “I’d Have You Anytime” e termina com a leveza quase pastoral de “Thanks for the Pepperoni” no terceiro disco. Entre esses extremos, Harrison nos guia por um labirinto de emoções — da tristeza à celebração, da raiva à resignação.
54 anos depois, All Things Must Pass continua ressoando como uma obra-prima. Não porque foi um sucesso comercial ou porque consolidou Harrison como um artista solo, mas porque capturou algo essencial sobre o que significa viver: a impermanência das coisas, a importância de seguir em frente, e a beleza que encontramos ao longo do caminho.
É um álbum para ouvir com calma, como quem caminha por um jardim depois da chuva, sentindo o cheiro fresco da terra e a promessa de que, não importa o que aconteça, a vida sempre encontra uma forma de florescer novamente.


