Em algum dia perdido do começo da década de 80 do século XX eu tinha mais ou menos uns 13 anos de idade e tinha acabado de ir buscar uma fita k-7 que um amigo que morava do outro lado da cidade tinha gravado pra mim.

Eu morava em Apucarana, nome que em caingangue quer dizer algo como “sopé da grande floresta”.

Estudava em colégio de padre e tinha pedido para um colega de turma gravar um disco dos Stones que ele havia ganhado de presente de não sei quem. Fui de bicicleta porque ficava longe da minha casa. Por que tudo isso? Bem, eu consigo me lembrar com uma quase exatidão poética o momento que entrei na primeira curva da praça Ruy Barbosa pedalando no ritmo do violão que pelo fone de ouvido sintetizava aquele momento numa epifania: “Honk Tonk Women”.

Escuta lá, é o som perfeito para andar de bicicleta num dia nublado, frio e perdido numa cidade provinciana do interior do Paraná. Acho que eu senti o “honk tonk blues” ali nas minhas veias enquanto os pés marcavam o ritmo nos pedais. O resto desse dia se perdeu nas brumas do olvido, mas aquele momento ficou pra sempre num biografema cravado como uma pedra rolante em estéreo no centro afetivo nervoso dos meus ouvidos.

Escrevo isso agora porque no final do mês de novembro próximo “Let It Bleed” completa 55 anos, a mesma idade que tenho agora, o que não quer dizer absolutamente nada além de que o tempo seja um solvente universal no qual tudo vai derretendo para virar memória.

“Biografema” é uma espécie de memória afetiva, amorosa. Foi Roland Barthes quem explorou esse conceito em seu “Fragmentos de um Discurso Amorso”, um livro supimpa que foi vertido para o palco nos gloriosos e distantes e transbordantes tempos nos quais Londrina respirava outros ares. A cidade era uma Atenas envelopada pelo cheiro do café que atraia para cá gigantes como Ney Latorraca para atuar lendo as cartas de Mozart em super estreias de monólogos polifônicos.

É porque por detrás da ribalta havia gente que era um puro acontecimento. Nitis Jacon tinha a manha de fazer isso acontecer: transformar uma cidade provinciana numa cidade-estado cosmopolita irradiando arte e cultura para o mundo inteiro. Faz uma falta imensa. Algo que só poderia ser um pouco abrandado com algum respeito por sua memória ficando materializada como nome do Teatro Municipal, algo que nenhum candidato provinciano desses aí tem a grandeza de entender o significado e se engajar em sua conclusão. Gente medíocre pra quem arte e cultura é frescura e que não entende que a grande sacada que Nitis sabia muito bem: a fertilidade da terra vermelha estava em sua qualidade como pigmento. Londrina é feita de uma terra que é tinta. Da cor do sangue. E como naquela música na voz da Gal, Nitis “deixava sangrar”.

Nittis sabia que por aqui quando chove tudo sangra. É por causa da terra. Gosto daquela foto do Haruo Ohara na qual alguém anda pelo lamaçal de hemácias no centro de uma cidade que está ainda nascendo como uma ferida que não estanca. Aliás, o Museu de Arte de Londrina poderia ser mais ativo se fosse transformado em Museu Haruo Ohara – tanto o fotógrafo merece um espaço assim de destaque no centro nervoso da cidade quanto Londrina precisa se vestir com as marcas dos espíritos iluminados que por aqui passaram. Já pensou que linda parceria com o Instituto Moreira Salles?

ANGÚSTIA E ARTE

Voltando aos Stones, eles estavam em meio de todo aquele caos e da insanidade cultural que cercava o final da década de 60. Com Let It Bleed a banda entregou para seu público um álbum que destilava tanto a euforia quanto o desespero de um mundo à beira do colapso – daí a atualidade de Let It Bleed. A banda nunca se preocupou em oferecer consolo ou soluções, e este disco é a prova definitiva. Enquanto os Beatles estavam ocupados encerrando sua própria ópera cósmica com Abbey Road, os Stones vinham sujos, ásperos e vorazes, como se tivessem nascido para rasgar os véus da hipocrisia social com acordes brutais e letras cortantes.

Há algo de primal em Let It Bleed, uma espécie de convite perverso para dançar sobre o abismo, como se Mick Jagger e Keith Richards soubessem que a festa estava acabando, mas quisessem que você aproveitasse cada segundo antes que as luzes se apagassem. Mais ou menos como você se sente exatamente agora.

De Gimme Shelter a You Can't Always Get What You Want (nem sempre você consegue aquilo que você quer), o álbum percorre o espectro do existencialismo com uma intensidade assustadora, como um filme noir sonoro que pulsa com angústia e desejo. A guerra, a violência e o caos são as notas predominantes em faixas que transbordam desilusão. E, ao mesmo tempo, há uma estranha celebração dessa anarquia, uma sensação de que a destruição iminente é inevitável, então por que não dançar enquanto o mundo arde?

Os Stones sempre foram os mestres do lado mais sombrio do rock, e aqui eles estão no seu auge, transformando angústia em arte, revolta em catarse. A música, em sua crueza, é tanto uma arma quanto um espelho, refletindo o que muitos sentiam, mas poucos ousavam admitir. O que Let It Bleed faz de maneira tão visceral é lembrar que o rock 'n' roll nunca foi sobre a redenção. Ele é sobre a verdade quase nua e suja e inescapável de que a vida é uma bagunça, e a melhor coisa que podemos fazer é gritar, cantar, e, sim, sangrar junto. As guitarras de Richards soam como lâminas rasgando uma realidade que nunca foi tão bonita quanto o sonho da contracultura prometia. Enquanto isso, Jagger, com seu sarcasmo felino, guia o ouvinte por uma jornada onde o amor é caprichoso, a paz é uma piada cruel, e o prazer é um alívio temporário antes da próxima rodada de dores. Ao final, o que sobra é a pura exaustão, mas uma exaustão que te faz sentir vivo. Não há redenção, e essa é justamente a redenção que Let It Bleed nos oferece.

Estamos vivos em Londrina e faz 55 anos que esse disco nos ensina que nem sempre conseguimos aquilo que queremos. Não temos mais nem Nitis, nem Haruo Ohara conosco. Mas tem muita gente tentando com muita paixão rolar todas essas pedras colina acima, não é dona Janete El Hauly? Não é mesmo Chris Vianna? O povo todo do cinema representado aqui no nome do heroico Rodrigo Grota retumbante. Não dá para colocar todos os nomes aqui porque felizmente o vermelho dessa terra é fértil demais e brota gente boa e nova a toda hora por aqui. Estamos tentando e com isso a gente acaba conseguindo o que precisa. Evoé, Saravá, Al-Salamu Aleikum!

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