O cinema é a arte de escrever com luz sobre as sombras da memória
Todos os motivos pelos quais devemos comemorar Ainda Estou Aqui de Walter Salles
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quarta-feira, 20 de novembro de 2024
Todos os motivos pelos quais devemos comemorar Ainda Estou Aqui de Walter Salles
Silvio Demétrio / Especial para a FOLHA 

Semana passada fui ao cinema. Mais precisamente, isso aconteceu na quinta-feira dia 14 – um dia qualquer não fosse a coincidência de ser meu aniversário e o da minha filha também.
Hannah estuda Ciências Sociais na UFPR e esse foi o primeiro aniversário que não passamos juntos. Acreditem, aquilo tudo que falam de “síndrome do ninho vazio” é tudo verdade. Uma verdade doída às vezes. E então fui com minha esposa e mais uma grande amiga celebrarmos o dia no templo do barato eterno: o cinema. “Ainda Estou Aqui” – não tive como evitar pensar na coincidência do meu aniversário com o da minha filha.
Essa coisa de família é um laço forte demais e ver as Fernandas interagirem com suas personagens na grande tela foi uma epifania.
É curioso pensar no cinema como uma espécie de espelho distorcido da realidade, onde laços de sangue e tinta de celuloide se enlaçam para revelar algo maior que a soma de suas partes.
O ato de trazer as relações familiares para a tela não é apenas um recurso narrativo; é um gesto que subverte o óbvio e mergulha o espectador em camadas emocionais quase tácteis.
Essa simbiose entre o biográfico e o ficcional, ao mesmo tempo tão íntima e coletiva, atinge o seu ápice em filmes como Ainda Estou Aqui de Walter Salles, um poema visual tecido a partir das sombras do Brasil ditatorial.
Não que este tipo de encontro entre pais e filhos em cena não tivesse acontecido antes no cinema. Por exemplo, há algo de visceral no encontro de Henry e Jane Fonda em Num Lago Dourado (1981). Pai e filha não apenas interpretam personagens com uma relação tensa; eles reencenam um jogo de espelhos que reflete as fissuras da própria convivência. A crueza dessa tensão não caberia em um roteiro apenas; ela transborda, desafia o espectador a diferenciar o real do encenado.
O mesmo se pode dizer de The Way (2010), onde Martin Sheen e Emilio Estevez caminham, literalmente, pelos ecos de sua ligação familiar. A escolha de Estevez em dirigir seu pai não é só pragmática; é quase uma confissão pública de sentimentos que apenas a lente da câmera poderia capturar com tamanha nitidez.
No entanto, poucos filmes abraçam com tanto arrojo a continuidade geracional quanto Ainda Estou Aqui. A decisão de escalar Fernanda Montenegro e Fernanda Torres para interpretar a mesma personagem, Eunice Paiva, é quase uma metáfora visual. A passagem do tempo não é apenas uma técnica narrativa; ela se materializa em carne, expressão e memória.
A obra de Salles evoca o que há de mais profundo na dor e resiliência brasileiras. Montenegro, como uma memória viva, e Torres, como a energia do presente, se encontram em um movimento que dissolve as barreiras entre personagem e ator. É como se a câmera de Salles fosse uma testemunha etérea, gravando não apenas os movimentos, mas o peso do significado contido em cada olhar.
O cinema é kintsugi (arte japonesa de restaurar objetos de cerâmica quebrados com ouro em pó) - sempre falo isto pensando na montagem como arte de agenciar as rachaduras, as fraturas das relações, preenchendo-as de ouro narrativo. A prática de pais e filhos contracenarem ou interpretarem o mesmo papel em tempos distintos revela uma dimensão que desafia a lógica convencional da atuação.
No caso de Ainda Estou Aqui, essa alquimia familiar transcende as limitações do roteiro e se torna um espaço de reverberação emocional que conecta gerações. Mais do que narrativas isoladas, esses exemplos formam uma tapeçaria onde o cinema não só documenta, mas elabora as múltiplas facetas das relações familiares.
Entre o efêmero e o eterno, filmes como os citados nos convidam a refletir sobre nossas próprias histórias, ecoando o que Joan Didion chamaria de "o poder do detalhe para criar universos inteiros."
No final, são essas histórias — vividas, inventadas ou algo entre as duas — que nos fazem humanos e, paradoxalmente, eternos. Ainda Estou Aqui é um filme do balacobaco. Vá comemorar no cinema. Eu recomendo.


