Bem-vindos à era do algoritmo off-line
Uma quase-crônica sobre como somos assombrados pelos espectros das redes sociais
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 11 de dezembro de 2024
Uma quase-crônica sobre como somos assombrados pelos espectros das redes sociais
Celia Musilli 

Michel Foucault introduz o conceito de biopolítica em seu curso no Collège de France, intitulado "Segurança, Território, População", ministrado em 1977-1978, e o desenvolve mais detalhadamente no curso do ano seguinte, "Nascimento da Biopolítica" (1978-1979). Esses cursos foram posteriormente publicados com base em gravações e notas, sendo fontes fundamentais para a compreensão do tema.
A biopolítica, no contexto das redes sociais, ajuda a pensar como incorporamos hábitos digitais ao nosso comportamento diário de maneira quase automática. Michel Foucault descreve a biopolítica como o poder que não apenas governa corpos, mas organiza a vida — algo que se traduz, hoje, na forma como algoritmos e plataformas moldam o que vemos, pensamos e fazemos. Nas redes sociais, esse poder se manifesta no estímulo constante à produção de conteúdos que geram engajamento, como selfies, vídeos e opiniões rápidas.
Postar, curtir e compartilhar deixam de ser apenas ações pontuais para se tornarem hábitos profundamente incorporados. Isso acontece porque as redes criam um sistema de vigilância leve e sedutor: somos observados não por uma autoridade invisível, mas pelos nossos amigos, seguidores e até desconhecidos. Nossa busca por aprovação e validação se alinha perfeitamente com a lógica dessas plataformas, que transformam interações humanas em métricas e dados — o número de curtidas, visualizações ou seguidores.
Assim, sem perceber, moldamos nossos dias para caber nessa estrutura: registramos o almoço porque parece interessante, reformulamos opiniões para maximizar curtidas e ajustamos nosso humor ao que viraliza. O cotidiano se torna, aos poucos, um palco regulado por likes e notificações. A biopolítica das redes sociais, portanto, é sobre como nos adaptamos a esse modelo, deixando de apenas existir no mundo para performar nele, de acordo com as regras invisíveis que governam o engajamento.
É curioso como o hábito de clicar, rolar e reagir, inicialmente confinado às telas, começou a descer pelo fio da espinha dorsal da sociedade. Aos poucos, os movimentos que antes pertenciam exclusivamente aos dedos ganharam corpo: sobrancelhas arqueadas para "curtir" ou "descurtir", suspiros dramatizados que pontuam discussões como retuítes emocionais. Vivemos tempos em que os algoritmos, aquelas equações invisíveis, atravessaram a membrana do virtual e assentaram raízes no cotidiano de carne e osso.
O café da manhã, outrora um refúgio bucólico para o silêncio e o aroma de café fresco, transformou-se numa espécie de feed ao vivo. Lá está o tio discutindo futebol como se fosse uma thread inflamável. A tia, clicando com os olhos sobre os assuntos do dia, já levanta a voz para reproduzir um meme verbal sobre política. Cada frase não é mais uma comunicação em si, mas uma isca lançada ao vasto oceano da interação. Quem reagirá primeiro? Quem trará a réplica mais ferina?
O algoritmo offline é implacável. Ele nos treina para uma lógica de engajamento incessante. Estar certo ou errado? Irrelevante. O que importa é a escalada — da voz, do argumento, da emoção. O algoritmo pede atenção como um cão inquieto, roendo os calcanhares de cada silêncio. Ele exige ação, resposta, movimento. Como um bailarino mal ensaiado, cada um de nós dança nesse palco improvisado, buscando aplausos invisíveis que nunca chegam.
"Há algo de intrinsecamente espectral na maneira como as conversas ocorrem hoje", diria um daqueles fantasmas literários que nunca calaram a boca, mesmo depois de mortos. A mesa de bar — espaço de uma poética entre a cerveja e filosofia — virou arena de combate. O que antes era uma troca de anedotas, risadas rasgadas e tragos demorados foi substituído por reações afiadas como espinhos. Um "engajamento" a seco, onde as histórias não têm tempo de amadurecer, porque a meta é viralizar, mesmo que só entre os quatro bêbados da mesa.
O algoritmo offline não é um mecanismo artificial: é um organismo vivo. É um câncer silencioso no tecido das relações humanas. Cresce nas brechas entre o que se diz e o que se pensa, entre o que se responde e o que se deveria silenciar. Não há espaço para a hesitação ou para a contemplação. Só para o próximo "like" — mesmo que seja um olhar de aprovação disfarçado de ironia.Mas o abismo agora não é apenas o que olhamos: é o que somos. Cada resposta, uma reverberação de vazio; cada argumento, um espelho opaco de quem queríamos parecer. O que sobra? O eco de uma provocação mal digerida, as vísceras da nossa incapacidade de coexistir em desacordo.
Mas talvez, como em toda tragédia, haja uma brecha para a comédia. Quem sabe rir de nós mesmos seja a última resistência ao algoritmo que nos consome? Imagine o impacto disruptivo do silêncio numa mesa de bar, um intervalo deliberado entre réplicas. Silêncio como forma de resistência, como um ato político. Silêncio como o anti-like.
No fim, talvez o problema não seja o algoritmo. Talvez o problema sejamos nós. E a solução, paradoxalmente, não esteja em desconectarmos do digital, mas em conectarmos com o analógico, re-agenciando outros possíveis modos de vida — com os olhos que nos olham de volta, com as palavras que não precisam de hashtags. Desaprender a lógica da performance, talvez. Abandonar o palco.
Talvez a única forma de superar o algoritmo offline seja nos permitirmos algo ainda mais radical: sermos humanos fora do engajamento, fora da lógica dos números e dos jogos de soma zero. Um algoritmo sem likes não é algoritmo. É só vida. E é só isso que sempre fomos.



