Nesta última semana, dias antes da tragédia que devastou os familiares e amigos dos dez garotos queimados no CT do Flamengo, conversava com dois amigos aqui da FOLHA sobre qual julgávamos ser a melhor música de Chico Buarque. O Nelson Bortolin, chiquista de primeira linha, elegeu uma que eu nem conhecia, algo como o lado do B do mestre carioca: "Mar e lua" ("Amaram o amor urgente, as bocas salgadas pela maresia, as costas lanhadas pela tempestade"). O Rafael Fantin, moço velho como eu, lembrou de "Eu te amo" ("Se na bagunça do teu coração meu sangue errou de veia e se perdeu"). A despeito de considerar "Todo o sentimento" uma baita canção, elegi "Pedaço de mim", por trazer uma das melhores definições de saudade que conheço: "A saudade é arrumar o quarto do filho que já morreu".


A música me veio imediatamente à cabeça quando soube do incêndio da última sexta-feira. Não sou capaz de imaginar, sequer dimensionar, o que está no coração das dez mães que tiveram seus filhos ceifados no ninho. Da forma mais dilacerante possível, elas estão vivenciando o que o Chico escreveu. Aqueles dez adolescentes cheios de vida e repletos de sonho são agora pedaços de nós. Nós, que só vemos sentido no esporte se for para garantir a plenitude de nosso corpo, de nossa mente. Se esporte é vida, que história é essa de perdê-la de maneira tão trágica, tão evitável, num espaço feito para projetar uma carreira futebolística inteira pela frente?

Não desejo força ao Flamengo, com todo o respeito que a imensa nação rubro-negra merece. Quem precisa de força nesse momento são essas mães, pais, irmãos, tios, avós, amigos, enfim, aqueles que tinham laços de sangue a afeto com os adolescentes. O que o Flamengo precisa é explicar por que negligenciou as condições de segurança do alojamento onde ficavam os meninos da base, tendo sido multado 30 vezes pela prefeitura carioca. Da mesma forma, a própria administração municipal do Rio também tem que dizer por que, ciente de que o CT não tinha permissão para construir um alojamento em contêineres, não interditou o espaço.

Por óbvio, teremos reportagens e mais reportagens sobre a situação física e a infraestrutura dos centros de treinamento espalhados pelo País. Nós, imprensa, também temos o hábito de só enxergar ou descobrir o problema quando ele vira tragédia. O espaço aqui está acabando e nem me atrevi a comentar a classificação do Londrina na Copa do Brasil, quinta, e a eliminação da semifinal do Paranaense, nesse domingo. Não há o que dizer. Por mim, nem deveria haver futebol nesse último fim de semana. Boa semana.

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