Na semana seguinte à tragédia no CT Ninho do Urubu, uma onda de fiscalizações em alojamentos de times de futebol (especialmente de base) tomou conta do Brasil, no nacionalíssimo espírito prevenir-depois-que-aconteceu. A tendência é que seja uma moda passageira, de alguns meses, para que depois o foco da comunidade futebolística seja novamente direcionado para o corte de cabelo do Neymar, se clube tal fez bem em demitir tal técnico, e assim por diante. Se uma ou duas medidas efetivas forem adotadas além do calor do momento, já será alguma coisa.

Reportagem da FOLHA publicada no último fim de semana (16 e 17) mostrou que, embora o incêndio no CT flamenguista tenha sido de longe a maior tragédia, os maus-tratos são comuns nas categorias de base pelo Brasil. É uma realidade que, evidentemente, é mais rara nos clubes grandes e médios, até porque possuem estrutura e recursos para oferecer um tratamento mais decente às jovens promessas do nosso futebol.

Porém, o promotor paranaense Murillo José Digiácomo mencionou na matéria um problema que vai além do que os bombeiros podem vistoriar: a imensa pressão psicológica que esses meninos sofrem. Num país tão desigual como o Brasil, o futebol é encarado como instrumento de ascensão social, e muitas famílias encaminham seus filhos para o esporte com o espírito de única cartada - ou tudo ou nada. Pais deixam de trabalhar para cuidar da "carreira" (se assim pode ser chamada quando estamos falando de um menino de 14 anos) de talentos promissores, adolescentes se tornam arrimos de família. Esses garotos se veem privados de coisas corriqueiras para outras pessoas da mesma faixa etária e uma minoria vai realmente se profissionalizar. E dos que conseguem, pouquíssimos têm os rios de dinheiro e a fama que despertam sonhos em tanta gente.

Diante do fiasco da seleção sub-20 no Sul-Americano do Chile, que deixou o Brasil novamente de fora do Mundial da categoria, as seções de comentários dos grandes portais e as redes sociais, os Tribunais de Inquisição dos nossos tempos, foram tomadas pelos costumeiros ataques: a garotada, supostamente "mimada", estaria mais interessada em "cortes de cabelo" e na "cor da chuteira" do que em "jogar bola". É claro que existe uma bajulação que gera excessos, mas faz sentido cobrar meninos que jogam futebol como se cobrássemos políticos? O Brasil está tratando mal a molecada.

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