De casa
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 05 de dezembro de 2016
Rafael Fantin 
Cedo demais
"É tão estranho/ os bons morrem antes/ me lembro de você e de tanta gente que se foi/ cedo demais". A bela canção "Love in The Afternoon" foi composta pelo poeta do rock nacional, Renato Russo. Ele também foi embora muito cedo, com apenas 36 anos. Em uma semana tão triste, a mais trágica do esporte, procuramos sentido nas músicas, consolo nas orações e, o mais difícil, a hora de enxugar as lágrimas, levantar a cabeça e seguir em frente.
Assim, honramos vidas e sonhos interrompidos de 19 jornalistas e um craque-comentarista, que passavam a emoção deste jogo apaixonante que é o futebol. Honramos também a memória e o legado de atletas e comissão técnica de um time que protagonizava uma façanha ao chegar na final da Copa Sul-Americana, depois de sair da Série D em 2009.
Danilo, 31 anos, foi o herói da classificação. Debaixo das traves, o "Paredão" fazia milagres e segurou até o San Lorenzo do Papa Francisco. Londrina conheceu a grandeza do menino, que não tinha a altura ideal para ser goleiro, mas que a cada defesa vibrava e se tornava um gigante diante dos atacantes. Em breve, o LEC vai inaugurar um memorial no VGD para recordar seus anos de glórias e Danilo merece um destaque especial neste novo espaço.
Nós, jornalistas, somos apaixonados pelas histórias do futebol. Crescemos obcecados pela chuteira, pela bola e pelo gol. Sem talento nos pés para sermos protagonistas da história, descobrimos uma forma de ficar perto deste jogo maravilhoso, por meio das palavras. Somos Homeros em busca de Aquiles. Precisamos contar as façanhas de nossos craques, lendas e mitos. Saímos menores da tragédia sem nossos heróis mortos durante a batalha pela conquista da América do Sul. Saímos menores sem os nossos colegas da imprensa esportiva. O destino feriu os heróis e os contadores de histórias com o mesmo golpe. Dona Ilaídes entendeu como ninguém essa relação, agradeceu aos jornalistas por colocar o filho Danilo em um "pedestal" e ainda consolou toda a imprensa, através de um abraço no repórter Guido Nunes.
O único alento é que essa história não terminou. Muitas páginas ainda serão escritas com a coragem de quem não desiste e com a solidariedade de gente humilde e nobre. Gracias, Atlético Nacional de Medellín. Obrigado, Colômbia. O agradecimento combina mais em espanhol, pois a palavra graça remete à grandeza de estender a mão ao próximo, que não pode oferecer nada em troca.
Se existe algo de valor nesta tragédia, além de lições como a empatia no sofrimento, é que todos os brasileiros, hoje, podem te chamar de "Chape". Antes, este privilégio era exclusividade dos torcedores da Chapecoense. Mas, como não usar o apelido mais carinhoso depois de tudo que passamos nesta semana. Ao invés de 19 mil torcedores, 200 milhões de brasileiros (com a força dos hermanos colombianos) vão empurrar o time na Arena Condá neste processo de reconstrução com comprometimento e solidariedade de outros clubes. Vitórias, derrotas, títulos ou rebaixamentos não importam neste momento. O mais importante é honrar a memória das vítimas com a volta por cima da Chapecoense, pois o futebol é muito mais que um jogo. Por favor, Chape, não desista. Nós queremos contar ao mundo a sua história.


