De casa
PUBLICAÇÃO
domingo, 29 de abril de 2018
Diego Prazeres<br>[email protected] 
Resiliência
É o ato, que eu considero uma arte, de se refazer depois da queda. Reconhecê-la, e aí erguer-se, sacodir a poeira e dar a volta por cima. Uma prima querida, que perdeu a filha única de dez anos de idade em 2010, reconstroi a vida diariamente. Dias atrás, me contando sobre o seguir em frente ante outras tantas quedas iminentes a que estará sujeita, como todos estamos, ela citou Renato Russo: "escuridão já vi pior, de endoidecer gente sã". No caso dela, sobreviver a uma filha é a melhor maneira de vencer a própria vida. A resiliência em estado puro.
O Londrina, que neste mês completou 62 anos de vida, também teve que aprender na marra a se reconstruir por várias vezes. Há 20 anos, acho até que em abril, se a memória não falha, o time caiu pela primeira vez para a segunda divisão estadual. Uma situação inimaginável para quem, apenas dois anos antes, em 1996, chegara ao quadrangular final da Série B do Brasileiro. Na época, estudante de faculdade ainda, até escrevi uma carta para a FOLHA dizendo que era hora de a cidade resgatar o Tubarão. Recordei Martinho da Vila com seu inspirador "Renascer das cinzas". Eu morava em Curitiba, imagine o bullying. Naquele mesmo ano, forças vivas da cidade conseguiram fazer do limão a limonada, com apoio indevido inclusive do poder público, segundo se apuraria mais tarde, e o Londrina de novo ficou entre os quatro primeiros da Série B, perdendo o acesso no último jogo, de forma até hoje muito mal explicada por sinal.
Em 1999, o clube venceu a Divisão de Acesso, título aparentemente irrelevante, mas que pode ser considerado um dos mais dignos da história do clube. Porque resiliente. Em 2000, na Copa João Havelange, entregaram o futebol do Tubarão a uma dupla de picaretas que deixou faltar, além do próprio futebol, até insumos básicos como remédios e alimentação. Um vexame agonizante que durou até a última rodada e que só não foi completo porque o torneio, indecente desde o nascimento, não previa rebaixamento. Mais uma vez, o clube conseguiu sacudir a poeira da queda e dar a volta por cima. Em 2009, período em que a justiça trabalhista "refundaria o clube" ao varrer toda uma direção em decisão memorável, o Londrina vivenciou talvez seu último momento de resiliência. Caiu de novo para a Segundona do Paranaense, mas se reergueu fora de campo. Veio a parceria com a SM Sports no ano seguinte e hoje a história é outra ainda que me preocupe o fato de o clube ser ainda tão dependente da parceira.
De modo que se hoje me pedissem para apontar o que mais me fascina na instituição Londrina Esporte Clube em suas seis décadas de existência eu diria com enorme satisfação: a resiliência. Boa semana.


