Culpe a TV - mas não muito
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domingo, 03 de março de 2019
Fábio Galão 
Na sexta-feira (1º), o presidente da RFEF (Federação Espanhola de Futebol), Luis Rubiales, anunciou nas redes sociais que o Campeonato Espanhol não terá mais partidas nas segundas-feiras à noite. "Não haverá mais futebol às segundas. A partir da próxima temporada, na LaLiga só haverá futebol aos sábados e domingos", escreveu o dirigente, completando com aquele rasgo estratégico de demagogia: "O negócio é importante, mas os torcedores são mais". Foi uma resposta à chiadeira de torcedores e clubes, inconformados com futebol sendo jogado no dia mais deprimente da semana.
É curioso que esse anúncio tenha sido feito bem no início de um feriado prolongado no Brasil em que as tabelas dos campeonatos estaduais reservaram várias maldades para o torcedor. Já imaginou partida de futebol na sexta-feira à tarde pré-folia? Pois Madureira x Bangu e Fluminense x Resende começaram às 16 horas do dia 1º. Jogar na noite do sábado de Carnaval também é complicado, hein? Pois Volta Redonda x Botafogo e Santos x Oeste foram nesse fatídico horário. Quer mais? Que tal um Ponte Preta x Botafogo de Ribeirão Preto começando às 20 horas da segundona de Carnaval? Pois vai ter.
Esses horários absurdos não são mero amor de Carnaval entre as federações e a falta de bom senso (isso aí a gente já sabe que é casamento firme). Em rodadas anteriores, jogos em tarde de dia útil foram comuns, e teve até Volta Redonda x Madureira começando às 10 horas de um sábado. O resultado é o esperado: várzea dentro de campo e fora dele arquibancadas vazias. No Paranaense, não estamos tendo essas piruetas na tabela, mas apenas porque nosso Estadual não está passando na TV paga.
A tentação natural do torcedor é responsabilizar a televisão, mas, cá entre nós, ela tem a menor culpa. Paga milhões para transmitir campeonatos de nível técnico sofrível e precisa ter retorno e preencher suas grades de programação. Ou seja: está defendendo seus interesses e de seus apoiadores, ao contrário dos outros envolvidos na questão. As federações só pegam sua porcentagem e garantem verba para o ano todo. Alguns clubes até chiam, mas parece que estão mais preocupados com bobagens como se sua torcida vai poder ocupar tal curva do estádio ou se a galera adversária vai entrar com a camisa do time.
Eles poderiam ter mais poder de barganha se não fossem tão dependentes do dinheiro da TV, hoje a maior receita de todos os clubes brasileiros. Na Europa, os direitos de transmissão são uma renda importante, mas não há tanta dependência. Assim, fica mais fácil fazer pressão por horários decentes, como aconteceu na Espanha.
No Campeonato Brasileiro, há menos absurdos, mas ainda acontecem aberrações como a tal Segunda-feira Campeã e jogos às 11 horas de domingo em um país tropical. Resta saber como o racha que dividiu as transmissões na TV paga em dois grupos de mídia vai influenciar os horários do Nacional a partir deste ano. Que se pense ao menos um pouquinho no torcedor que prefere arquibancada ao sofá.


