Carta aos alemães
PUBLICAÇÃO
domingo, 03 de junho de 2018
Fábio Galão<br>[email protected] 
Prezada Alemanha, outra Copa está chegando. Não gostamos muito de lembrar da última, pela maldade que vocês fizeram com a gente. Gostaríamos de dizer a vocês que muita coisa mudou desde aqueles fatídicos 7 a 1, que a tremenda surra que vocês aplicaram no Mineirão nos obrigou a repensar o nosso futebol e a organizá-lo melhor. Não foi nada disso, embora a vontade de parecer o contrário seja grande.
De lá para cá, dois presidentes da nossa confederação nacional de futebol foram destronados, mas ambos por força de investigações externas. Se dependesse da gente, os dois ainda estariam faceiros por aí, cortando fita, entregando taça e colocando medalha no bolso. O último até deu um jeito de manter sua turma no poder, ao emplacar um novo modelo de eleição que dá mais poder às federações estaduais.
Assim como vocês, não sabemos para que servem as federações estaduais exceto sugar dinheiro das TVs e dos clubes e organizar os famigerados campeonatos estaduais. Ah, vocês não sabem o que são campeonatos estaduais? Bem, imaginem que houvesse um campeonato apenas com times da Baviera o Bayern ia ganhar sempre! Ah, espera: isso já acontece no Campeonato Alemão, né?
Os clubes, afundados em dívidas, só choramingam por direitos de transmissão e nada fazem para tomar as rédeas da própria vida. Alguns até tentaram criar uma liga própria no ano retrasado, mas a tal nem chegou à terceira edição porque foi implodida por disputas por migalhas. A maioria dos belos estádios que fizemos para vocês ganharem a Copa revelou uma montanha de esqueletos no armário desvios, superfaturamento, propinas, e algumas dessas arenas mal são utilizadas.
Dentro de campo, muitos analistas que haviam decretado a falência do futebol brasileiro após os 7 a 1 hoje se esforçam para enxergar mudanças. Técnicos novatos, tão fracos e limitados como os das gerações anteriores, são saudados como grandes estrategistas. A coisa está tão feia que tem gente chamando 0 a 0 de jogo do ano e classificando como revolucionário treinador que fica nove jogos sem ganhar.
Mas, vejam vocês, para variar, continuamos revelando craques, o que nos mantém conformados. Temos um novo técnico, que não é lá um gênio em termos táticos, mas é um grande motivador emocional e, como vocês testemunharam naquela tarde no Mineirão, controle emocional não é nosso forte. Temos Neymar, e se ele estiver mesmo recuperado e mais disposto a jogar bola do que a dar chilique, nossas chances aumentam. Seguimos não nos importando em ver nossos melhores jogadores pela TV e pagar fortunas para ver no estádio os pernas de pau que sobram por aqui.
Talvez nos reencontremos, e achamos muito difícil que outro 7 a 1 aconteça. Mas, se quiserem fazer um 90 a 0, não se acanhem. Não vamos aprender nada, mesmo.


