CÉLIA MUSILLI -

Vida pública e vida privada


 

.
. | Marco Jacobsen
 


O filósofo, ensaísta e crítico literário alemão Walter Benjamin (1892-1940) tinha um olhar muito aguçado sobre a tecnologia, a fotografia, o advento do registro da vida nas metrópoles no período pós-industrial. Dessas análises ele trata também no ensaio “Flâneur” quando destaca um gênero de literatura que fez sucesso nos jornais de Paris durante muito tempo e que tratava de uma espécie de fisiologia dos povos, enfocando os tipos urbanos.  Benjamin já notava e se ressentia do desaparecimento da vida privada tendo em vista que tudo se tornava cada vez mais público pela própria atribuição da imprensa e das novas relações sociais. 


Imagino como hoje Walter Benjamin veria a vida contemporânea, as relações virtuais, as selfies, os registros multiplicados de cada passo do cidadão esquadrinhado em suas preferências, tendências, sexualidade e parcerias, com pessoas se imiscuindo cada vez mais na vida do outro, a ponto de fazerem um juízo se fulano é solteiro,  casado ou divorciado, se a mulher é “do lar” ou profissional de alguma área, procedimentos que demonstram que nunca a vida privada foi tão invadida por fofoqueiros “bem intencionados.” 


No seu ensaio sobre o século 19, ele citava Balzac que alertara antes: “Pobres mulheres da França! Bem queríeis  permanecer desconhecidas para tecer seu pequeno romance de amor. Mas como haveis de consegui-lo numa civilização que manda registrar em praças públicas a partida e a chegada das carruagens, que conta as cartas e as sela uma vez no despacho e outra na entrega, que dá  números às casas e que, em breve, terá todo país, até as menores parcelas, registrado em seus cadastros?” Neste  ponto, Benjamin observa que “desde a Revolução Francesa , uma extensa rede de controles, com rigor crescente, fora estrangulando em suas malhas a vida civil.”  


Penso nisso quando vejo avançar na sociedade brasileira - que nem sequer ainda fez sua revolução - tentáculos que passam pelo julgamento em rede social de comportamentos e escolhas pessoais. Na verdade, ninguém deveria ter nada com isso, mas direitos individuais vão sendo atropelados à medida em que movimentos e tendências diversas – da política à preferência musical - passam a  regular a vida alheia, a partir de comportamentos e regras travestidos de independência, mas que embutem outros interesses para a conservação do poder.  

Cabe ao bom-senso assinalar a tentativa de controle e, de preferência, enfrentá-las. 

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