Victor Hugo e o espiritismo
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sexta-feira, 04 de maio de 2018
De tudo que ouvi falar do escritor francês Victor Hugo (1802 1885), o fato mais instigante é sua relação com o espiritismo, sobretudo em relação às "mesas falantes". O fenômeno que tomou conta dos EUA e vários países da Europa, em torno de 1850, marcava a estruturação do Kardecismo que teve em outro escritor francês, Allan Kardec, o marco da divulgação de uma nova doutrina cristã, que explica o movimento cíclico das reencarnações, tirando da morte o peso do fim absoluto.
O que me chamou a atenção sobre o assunto foi "O Livro das Mesas", obra de mais de 600 páginas que aborda as conversas do grande escritor francês com os espíritos, em seu exílio na Ilha de Jersey, quando fugia de Napoleão III, como outros tantos exilados. O livro, que acaba de ser publicada pela editora Três Estrelas com tradução de André Telles e edição de Patrice Boivin - traz os quatro cadernos de anotações feitas por Hugo a partir das conversas com espíritos tão cultos quanto Shakespeare e Dante, bem como com espíritos desconhecidos que atendiam por nomes inusitados como Sombra do Sepulcro, Crítica, Metempsicose, Drama e Morte.
Se a princípio toda essa história causa estranhamento, o fato de Victor Hugo estar no exílio talvez explique boa parte de sua necessidade de comunicação. No prefácio, assinado por Patrice Boivin, chama a atenção o fato dele descrever as mesas espíritas como parte da "mobília" da casa do escritor exilado.

O desdobramento de coincidências, nesta fase de um dos mais célebres escritores da França, começa com seu desejo expresso numa carta a mulher Adèle de encontrar um lugar para morar após sua fuga. Na carta ele descreve seu sonho de encontrar uma "casinha, com vista para o mar, janelas para o sul, e - por que não? - um jardim". Pouco tempo depois, ele se instala numa casa de estranha arquitetura na praia de Azette, Ilha de Jersey, que ele descreve como "uma choupana branca à beira-mar, um pesado cubo branco de ângulos retos", acrescentando uma informação dramática: "tinha a forma de um túmulo". Não se assustem, a literatura de Hugo é povoada por elementos simbolistas.
É nessa casa estranha, chamada Marine Terrace, que o escritor vai encontrar as vozes a que deu vida nos quatro cadernos que compõem "O Livro das Mesas". Dá para imaginar o quanto de solidão, medo e saudade o escritor sentia naquela fase.
O exílio nos torna automaticamente estranhos. Percebo isso quando encontro meus vizinhos coreanos, esforçando-se para entender quando reclamamos do calor ou comentamos futebol no elevador. Dá para perceber a felicidade de coreanos, haitianos e venezuelanos quando lhes damos um dedo de prosa, automaticamente convertendo a confusão linguística num esforço conjunto de comunicação.
As experiências espíritas de Victor Hugo duraram de 1853 a 1855 na Ilha de Jersey. Delas participaram amigos que iam visitá-lo, como a dramaturga e jornalista Delphine de Girardin, que trocou a mesa quadrada da casa na qual ela não conseguia grande progresso na "nova ciência" - como chamavam o que viria a se tornar religião por uma mesa redonda, de três pés, na qual a comunicação com os espíritos fluiu com mais facilidade. Era nas mesas que se firmava o elo entre os vivos e os mortos, que se comunicavam a partir do código de determinado número de batidas na madeira que criavam palavras e frases inteiras para formular respostas.
Nos diálogos de Victor Hugo com os espíritos, mistura-se a literatura com a crença da vida após a morte. Muitos diálogos trazem elementos francamente poéticos como numa conversa com o espírito que atende pelo nome de "A Inspiração" que afirma: "Os poetas são passarinheiros, as ideias são os pássaros, e eu sou asa". Por coisas assim, vale a pena ler "O Livro das Mesas". Mais que um compêndio de espiritismo, trata-se de literatura com momentos sublimes, assustadores e divertidos que abordam questões de vida e morte em diálogos, poemas e até numa peça de teatro. Não é todo dia que a gente pode conversar com o Além através de um livro, embora a literatura sempre nos leve para outros planos.
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