CÉLIA MUSILLI -

Vexame digital sem igual


O corretor ortográfico nos ajuda a escrever direitinho. Mas às vezes comete erros que se transformam numa verdadeira comédia. Perdi a conta de quantas vezes passei vergonha com seu troca-troca. Tanta vergonha que pensei em desativar o dito cujo, mas como facilita acentuações e outras coisinhas, deixei o bandido no celular, com a certeza de que ele também ri de mim todo dia.


Apressada como todo jornalista, digito mais rápido do que penso e respondendo a duas ou três mensagens por whats quase simultaneamente, a chance de “ajudar” o corretor a errar é maior ainda. Como jornalista, errar a ortografia das palavras é quase motivo de pânico, mas quando vejo, lá se foram vários equívocos que passei a colecionar ultimamente, certa de que nem a mais fértil imaginação seria capaz de criar tantas bobagens. O Sr. Corretor – que tenho vontade de chamar de “corredor” - pode ser comparado a um bom comediante ou a um sujeito malicioso que erotiza tudo o que encontra pela frente.




Pelos erros das minhas mensagens ou encontrados por aí, diria que o corretor é um sujeito malicioso quando a gente escreve “tapado” e ele muda para “tarado”. Nas minhas mensagens, manhã já virou manga, Andes virou antes, Varda (nome próprio de uma famosa cineasta) virou valsa. E antes de sair dançando sozinha, embora envergonhada, confesso que quando escrevo nomes de pessoas ligadas à cultura de Londrina, o Sr. Corretor muda tudo para versões que nem a imaginação mais fértil criaria. Dezenas de vezes o cineasta Rodrigo Grota virou Rodrigo Grita, Bernardo Pellegrini, que chamo de Ber, já virou Ver, e Kiko Jozzolino se transformou em Mimo Jozzolino, o que não deixa de ser carinhoso. Alguns desses erros corrigi a tempo.


Quando se trata de amigos e conhecidos a vergonha é menor. Mas meu corretor já cometeu gafes que me deixam com vontade de me esconder embaixo da mesa e só sair no carnaval. Foi assim da vez que escrevi Carvalho e o corretor bandido eliminou o V, transformando sobrenome de gente em palavrão.


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. | Marco Jacobsen
 


Mas uma de suas piadas preferidas é “corrigir” o nome da agência internacional de notícias France Presse para France Pressa, o que no jornalismo faz todo o sentido. Jornalistas são um bando de apressadinhos que levam a afobação das redações para casa. Isso já me valeu broncas dos filhos quando cobro todo mundo à mesa na hora das refeições e eles respondem bocejando: “Calma, mãe, isso aqui não é jornal, não”. Mas na vida teimo em cumprir o 'dead line', o que no celular já virou 'death line'', graças ao exibido, metido a poliglota.


O Android oferece recursos que desabilitam palavras para que a gente não dê vexame, não vou repeti-los aqui para não transformar meu texto em manual, mas vocês podem encontrar tutoriais que explicam direitinho como educar seu corretor ortográfico. Essa é a solução que pretendo adotar para evitar vexames como o que passei esta semana. Estava ali na rua Borba Gato pedindo um Uber, enviei a mensagem, e só então notei que em vez de Borba Gato o corretor pediu para “vir um gato.” Eu ri quando o Jorge apareceu arrumando o cabelo e com um sorrisinho no canto da boca.



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