CÉLIA MUSILLI -

Vejo um país dançando à beira do abismo


Vejo um país dançando à beira do abismo
Marco Jacobsen
 


A semana “brindou” o Brasil com uma notícia que tem endereço certo: atingir o trabalho das ONGs porque autogestão e autonomia contrariam projetos de quem quer o controle político, econômico e social. A invasão policial, sem amparo de decisão judicial, da sede do Projeto Saúde & Alegria, em Alter do Chão, no Pará, mais a prisão de quatro jovens que fazem parte de uma brigada que apaga incêndios criminosos na Amazônia, deram a medida do autoritarismo a que chegamos. Neste caso, é preciso reagir, sobretudo quando colunas passam a disseminar calúnias e textos passam a difundir pretextos.


Conheço parte do norte do Brasil. Além do Amazonas, nos anos 1990 viajei partindo do Maranhão em direção ao Pará, andei de avião, trem e ônibus carregados de galinhas e eletrodomésticos. A região já se apresentava como terra de ninguém. Forasteiros interessados em ouro e terras, ainda que griladas, faziam a festa e invadiam territórios indígenas.




A situação, hoje, não é diferente. Piora tendo em vista a sinalização do governo para que tudo se converta em “empreendedorismo”, ainda que isso isso signifique um empreendedorismo que culminou com ações violentas como o Dia do Fogo, um enredo de triste e recente memória. Investigações do Ministério Público Federal de Santarém (PA) mostram que não foram os brigadistas que atearam fogo à mata, mas sim grileiros, fazendeiros e até comerciantes locais. A população que não pertence a essa casta desenvolveu seu próprio meio de “empreender”, formando cooperativas extrativistas, por exemplo, que hoje cultivam e exportam castanhas e outros alimentos produzidos na Amazônia, além de fornecer matéria-prima para a indústria cosmética e farmacêutica.


Tenho contato, nas redes sociais, com o coordenador do Projeto Saude & Vida, Caetano Scannavino, que faz um trabalho admirável junto a várias comunidades de Alter do Chão. Fiquei surpresa ao ver pessoas que não conhecem o projeto e nunca ouviram falar de Caetano Scannavino prestarem-se a criticá-los. Então, decidi apresentar aos leitores o trabalho do Projeto Saúde & Vida que atua há mais de 20 anos e foi criado pelo médico Eugenio Scannavino, irmão de Caetano. O projeto inclui um barco-hospital que foi pioneiro no atendimento a populações que não têm acesso a serviços médicos, além de incentivar projetos agroextrativistas, de educação e de prevenção e controle de queimadas. Essa ONG foi invadida para que se criminalizem suas ações e, de quebra, se atinja todo um trabalho solidário que há décadas tem sustentado comunidades amazônicas que não destroem, preservam.


Para a prisão dos brigadistas - que foram soltos na última quinta-feira (28) -  a única justificativa foi um áudio mostrando um diálogo deles cortado e montado fora de contexto pela polícia - como a imprensa noticiou amplamente. Assim mesmo, comunicadores que deveriam fazer um trabalho sério viram no episódio a chance de justificar uma ideologia que ainda necessita de sabotagens para se consolidar.


Eu vejo o Brasil dançando à beira do abismo, mas acredito que seremos resgatados pelos anjos da consciência comunitária, muito mais fortes do que as farsas políticas.


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