A colunista da Folha de S.Paulo Natalia Beauty justificou o uso de IA para fazer seus textos depois que um leitor reclamou do uso evidente de inteligência artificial em sua coluna.

Ela gravou um vídeo dizendo: "a galera usa IA como quem usa Mounjaro (caneta emagrecedora) mas não assume". Como se todo mundo - ou quase todo mundo - fizesse isso. E complementa: "as ideias são minhas e só uso IA para estruturar os textos."

Sinceramente, isso é coisa de quem não sabe escrever de verdade, qualquer um pode usar IA para várias funções e isso pode ser útil. Mas "estruturar um texto" é parte essencial da escrita, é saber organizar as ideias por ordem de importância, mantendo a unidade e a coerência.

Tenho observado pessoas que há uns dois anos não sabiam escrever um texto jornalístico coerente saírem agora "pedalando" matérias inteiras, como se a organização e a lógica do texto (ou das ideias) fossem delas. Sinto informar, mas isso é autoengano, é fingir que sabe fazer uma coisa que não sabe. Não estou falando de revisão de acentuação ou de grafia. Estou falando de fazer um prompt e deixar o trabalho de redação para a IA. Isso não é autoria. E autoria é coisa séria ou deixou de ser?

Os casos não se restringem a textos na imprensa ou redações escolares. Ao tratar disso nas redes sociais, recebi o seguinte comentário de Eduardo Lacerda, responsável pela Patuá, uma editora bastante conhecida no país: "Pior: a gente tem recebido livros inteiros, romances de 100, 200, 400 páginas todos estruturados com IA de forma muito evidente."

O cienasta londrinense Rodrigo Grota também deu sua opinião: "Nunca usei e não pretendo usar Chat GPT. Vejo que no meio do Cinema muita gente tem usado IA para escrever textos de projeto ou até mesmo roteiros, mas os resultados são inócuos, sem personalidade e sem vida."

Certa vez, fiz um curso de IA com um professor que ensinou a fazer um prompt de forma tão complexa que não aguentei, disse a ele que no tempo gasto para inserir aquele prompt na tela, eu já teria escrito dois artigos.

Lamento o uso indiscriminado da inteligência artificial sobretudo pelas novas gerações, inclusive de jornalistas, aqueles que assinam textos que não são seus, são da IA. Estruturar ideias é parte fundamental de um texto. Lamento o autoengano que está aprofundando o analfabetismo funcional com acento tecnológico. E lamento a falta de ética de quem finge a autoria de livros, músicas, obras de arte, incluindo o cinema.

Pensar, estruturar, escrever, criar são coisas diferentes de colocar dados na máquina. Como disse um grande amigo e jornalista de respeito: " Ah! Que vontade de dar uma Remington pra essa gente trabalhar!"

Isso pode soar até "antiquado", mas pelo menos não é desonesto.

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