CÉLIA MUSILLI -

Uma dança na prisão do tempo


Um bailarino que dança com a luz e a sombra, grafismos no chão, um espetáculo para ser visto de cima, na galeria, para que o público acompanhe todas as imagens e movimentos. Em síntese, o espetáculo do iraniano Mehdi Farajpour, apresentado na última quarta-feira, que redimensionou o tom contemporâneo do 7º Festival de Dança de Londrina que termina neste domingo (13), deixando na memória momentos afinadíssimos com a vanguarda da dança e do teatro.


Para quem viu quase tudo em décadas de arte ininterrupta em Londrina, com seus festivais que acertam dardos em todos os alvos do que há de melhor na cultura, o espetáculo de Farajpour – que estreou turnê no Brasil começando pelo Festival de Dança local - ainda trouxe ineditismo que surpreende olhos acostumados a todas as linguagens. Farajpour é um artista performático, conceitual, e o espetáculo “KA-F-KA” - (não kafta, vejam bem) inspirado na obra “A Metamorfose”, celebra a novela do autor austro-húngaro escrita em 1912 e publicada em 1915.




E como um bailarino poderia levar ao palco uma novela ousada ainda hoje? Numa montagem mais ousada ainda que mostra o quanto a rotina do homem contemporâneo reduz nossa humanidade nos aproximando do inseto, da metáfora de transformação em um outro ser que engole o humano em sua batalha diária.


O caixeiro-viajante da obra de Kafka aparece recontextualizado no espetáculo, sufocado pelo trabalho e as obrigações familiares. Ele ressurge correndo atrás de um relógio, imagem potente, projetada no chão do palco de modo que o bailarino corra contra as horas. De imediato, o público se identifica com o tic-tac do cotidiano que tira o fôlego e se desdobra depois no som de um celular insistente, aquele mesmo que nos acorda todas as manhãs, enquanto desesperados vislumbramos o tempo da “soneca” para, depois, sermos novamente despertados na luta do sono com a obrigação.


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. | Arte: Marco Jacobsen sobre fotografia do espetáculo KA-F-KA
 


A criatividade da montagem “KA-F-KA” é o embate físico de um bailarino exausto numa dinâmica coreográfica na qual o corpo se projeta em grafismos, luz e sombras, se transformando em bicho, coisa, coisa nenhuma, até virar o inseto que coroa a estranheza de uma obra crítica.


Passado mais de um século da publicação de “A Metamorfose” de Kafka, é surpreendente sua concepção para a dança-teatro num espetáculo pontuado por uma sonoplastia tão bonita quanto angustiante, apontando a humanidade presa nas engrenagens do tempo criado por ela mesma, uma abstração que se transformaria em cárcere.


Aprisionado no relógio mecânico ou digital, o homem moderno, assim como o contemporâneo, é um cumpridor de obrigações, planejadas dentro de um script diário que rouba sua humanidade de sentir, se emocionar, viver.

Essa prisão ganha dimensão num espetáculo que mostra a batalha de um corpo com as horas na figura do relógio, nos retângulos de claro e escuro, num labirinto projetado no chão do palco para que o bailarino o percorra numa dança aflitiva, de passos marcados por uma sincronia de tempo/espaço, da qual muitas vezes tentamos escapar pelas bordas.


Um pequeno texto, lido a partir de uma voz ao celular de alguém ligando de fora do palco, traz à cena o caixeiro-viajante George Samsa, ocupado atrás de sua mesa de trabalho. Ele é o personagem central da novela de Kafka que depois de um sono intranquilo, acorda e percebe que foi metamorfoseado num inseto. Mas o texto é um fragmento num espetáculo que usa o mínimo de palavras e o máximo de uma linguagem corporal que se mistura com imagens, projeções que tornam possível uma coreografia com a sombra e a luz, o claro e o escuro, o dia e a noite na dança das horas.


Uma peça criativa a partir da ideia da angústia existencial de um personagem que encontramos todos os dias em nossa própria rotina, confinados no quarto, no trânsito, no trabalho burocrático que nos tira a liberdade.


Mais de um século depois da obra de Kafka ser escrita, o homem se debate na estranheza de sua própria criação: a rotina, tendo o tempo como prisão abstrata, projetado sobre nossos corpos e nossa existência. Uma coisa a se pensar para transformar.


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