Uma crônica de Páscoa
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 30 de março de 2018
Sempre foi difícil explicar para as crianças o que é a Páscoa, primeiro a vida, morte e ressurreição de Cristo, a serem juntadas com episódios quase lisérgicos que reúnem coelhos e ovos de chocolate, tudo no mesmo pacote.
Eles nunca entendiam porque os adultos passavam uma sexta-feira tão triste, incomodados com a imagem de Jesus apanhando nos filmes da TV até ser pregado à cruz, e depois todos corriam no sábado para o supermercado, com uma alegria louca, para comprar bacalhau, vinho branco, quando havia dinheiro, e, claro, ovos de chocolate que ficavam guardados na geladeira, embrulhados até a manhã de domingo, quando eram abertos e os nacos de chocolate podiam, finalmente, ser comidos.
Nesta data, se enchiam tanto de chocolate que, de vez em quando, eram pegos atrás da mesa com a boca cheia e dois pedaços, um em cada mão, enquanto o olho comprido já avistava o que tinha sobrado na cesta do irmão.
Para ser sincera, não adiantava insistir muito com os princípios cristãos, embora descrevesse Jesus sempre como um cara bacana, generoso, capaz de perdoar e dar a outra face, para ouvir em seguida uma frase do tipo: "Se eu fosse Ele, tinha dado um soco na cara do soldado romano". A influência vinha de filmes como Os Vingadores ou o próprio Batman, nos quais ninguém deixava barato as provocações dos inimigos.
Com paciência, acabava explicando que Jesus era especial justamente porque agia de outra forma e ouvia como resposta: "Quer dizer que era moderno, mãe"? Eu dizia que sim, e logo eles queriam saber como Cristo demonstrava essas diferenças e vinha a chance de falar das parábolas, de contar histórias de perdão e explicar algum milagre.

Quando eram ainda bem pequenos, eu fazia caminhos com as marcas de patas de coelhos no jardinzinho de casa e, de manhã, eles abriam a porta e já começavam a duvidar que o animal tinha mesmo passado ali de madrugada porque, bem antes, tinham visto os ovos nas Lojas Americanas e nenhum coelho no caixa. No máximo, viam uma funcionária embalando chocolates, mas que não tinha nada a ver com o Sansão da Mônica ou com o Pernalonga. Nunca entendi a necessidade de realismo dos meninos para aceitar minhas histórias. Até que um dia percebi que era preciso também trazer o conceito de cristianismo para mais perto, para que a imagem Dele não ficasse suspensa no reino da fantasia, e resolvi levá-los para um local onde as pessoas praticavam a caridade, alimentando moradores de rua.
Às 6 da tarde de um domingo, quando na praça a kombi da sopa já atraia pessoas com fome, apresentei-os a seo José e dona Marta que faziam parte de um grupo religioso e distribuíam alimentos para homens e mulheres de olhos fundos. Disse então que o amor de Cristo era aquilo, estender a mão a quem precisasse, praticando a caridade, sem a necessidade de provar que Deus e Jesus existiam em carne e osso, a não ser por senti-los presentes naquelas ações que deixavam o coração da gente mais leve.
Assim, eles cresceram e, hoje, quando encontramos mendigos na rua e eu, sobressaltada com a violência, não quero parar - a não ser para prestar uma ajuda rápida e seguir caminho - eles quase sempre estendem a mão, ouvem as conversas, as queixas e, sem pressa nenhuma, tratam os necessitados como um amigo para quem se abre a porta de casa.
Dia desses, um mendigo deu uma sacola para um deles em frente a um shopping de Londrina, dentro havia duas carteiras cheias de documentos que possivelmente o moço encontrou, mas não tinha coragem de devolver para as autoridades com receio de ser confundido com um ladrão. Meu filho aceitou a sacola, sob meu olhar de censura, a levou para casa, pesquisou o nome das donas numa rede social e conseguiu devolver as carteiras e os documentos, dando-me uma lição que cabe direitinho como um exemplo cristão. Ele disse: "Não precisa ter medo, mãe, ele era apenas um daqueles caras com quem Jesus conversava quando todo mundo fugia." Chorei, e resolvi fazer desta história uma crônica de Páscoa.



