Um dia para lembrar das mães
Cada um tem a sua e um repertório particular de lembranças
PUBLICAÇÃO
domingo, 12 de maio de 2019
Cada um tem a sua e um repertório particular de lembranças
Celia Musilli - Grupo Folha 
Aos sábados a casa cheirava à cera Canário, todos os lençóis eram trocados, as toalhas idem, e até hoje não sei como, depois de toda faxina, ela tinha humor para se sentar às 19 horas em frente à TV, de banho tomado, jantar servido, para assistir à novela.
Minha mãe, Dona Anna, assim mesmo com dois “enes”, era perfeccionista em tudo. Além de cuidar da casa, num tempo em que os eletrodomésticos eram raros, arranjava tempo para tricotar e costurar, nunca a vi perder a paciência por isso.
Aos sábados ela celebrava a vida caseira, além do assoalho brilhante, cozinha e banheiro eram muito bem lavados, num rito de limpeza mais profunda que nos outros dias da semana. Com tanto trabalho, ainda poupava as filhas das tarefas domésticas, no máximo enxugávamos a louça, tirávamos o pó dos móveis, e apenas em dias mais inspirados entrávamos na faxina pra valer. Ela queria que fossemos professoras, enfermeiras ou advogadas, ter uma profissão fora de casa era mais importante do que nos “preparar para casar.” Aliás, ela nunca tocou no assunto, e casamos quando decidimos e com quem quisemos.
No Dia das Mães, meu pai, que era um admirador de máquinas e eletrônicos, aproveitava para inserir na casa algumas 'modernidades': liquidificadores e centrífugas, quando não criava ele mesmo artefatos que facilitavam as coisas do cotidiano, como suportes para que as portas não batessem com o vento e bebedouros para beija-flores.
Meu pai tinha verve de inventor, mas quando sobrava algum dinheiro investia nas máquinas compradas nas boas casas do ramo, tudo para facilitar a vida de minha mãe. Os presentes para a casa, que hoje são considerados uma afronta, soavam como música nos ouvidos dela, ainda que a música fosse o ruído nervoso do liquidificador Walita.
Num Dia das Mães, meu pai fez segredo do presente, que ninguém viu chegar lá em casa, até a manhã de domingo: uma enceradeira Arno, da qual víamos a propaganda nas revistas como as Seleções do Reader's Digest, que trazia mulheres com bobs nos cabelos, mostrando orgulhosas a sua Arno.
Minha mãe não usava bobs, mas ficou feliz com a enceradeira que facilitou o sábado de faxina com a cera Canário. Com a potência de um pequeno motor, o assoalho brilhava em dobro, e usar a novidade era tão gostoso que eu quis também brincar com ela.
Num sábado, peguei o eletrodoméstico para ajudar na faxina sentido-me uma das crianças da família Jetsons. Zum zum pra lá, zum zum pra cá, resolvi envolver um gato na limpeza. Delicadamente, pus o bicho no colo, segurei-o com uma das mãos, com a outra liguei a enceradeira, achando que o bichano deslizaria comigo como se andasse de patinete. Miauuuu...um arranhão no braço esquerdo, vários no direito, uma unhada no nariz, esse foi o saldo daquela ideia de andar com um “gato motorizado.” Passei o domingo pintada de mercúrio cromo e com meus irmãos fazendo graça, dizendo que eu parecia um índio. A partir disso, fiquei cismada com eletrodomésticos, mas incluía os gatos em brincadeiras silenciosas.
Entre as lembranças remotas do Dia das Mães, guardo o cheiro de bolo no forno, o sabor da macarronada, a soneca depois do almoço com janela aberta para o quintal. O dia era especial desde que acordávamos “para dar o presente da mãe”, que podia ser o eletrodoméstico ou um corte de tecido.
Apesar dos eletrodomésticos, tive uma infância de ruídos delicados, como o zumbido de abelhas, o som da máquina de costura, a cantoria da mãe lavando a louça. Sei que fomos atropelados e perdemos as sutilezas, mas ainda cozinho aos domingos e sei do valor de abraçar a mãe e o pai, enquanto ainda os temos, para uma festa de afagos, da qual só temos consciência depois de décadas de ausência e de visitas em sonhos.
Espero deixar para os filhos a delicadeza dessas situações, com a simplicidade da mesa posta com capricho, enquanto ligo a centrífuga e os gatos se escondem.
Feliz Dia das Mães.


