Gosto de andar na avenida Duque de Caxias e suas imediações. As lojas que vendem todo tipo de mercadoria remontam à época de grande influência rural na cidade e sobrevivem porque esse comércio ainda desperta interesse. Gosto de ver as "boas casas do ramo" que vendem ferramentas para lavoura e jardinagem, telas para viveiros, fogões a lenha – daqueles de ferro esmaltado – cordas, fogareiros e alumínios. As lojas especializadas trazem artefatos em couro: botas, botinas e cinturões, mas o que mais gosto é de ver as selas e arreios para montaria. Ter um cavalo sempre foi minha paixão, um dos animais mais livres e fortes que conheço. Mas para quem mora num apartamento de 150 metros quadrados, o cavalo é um sonho impossível, uma gata esperta já causa tumulto suficiente e suportável pelo amor que tenho aos animais.
Numa dessas lojas sempre vejo os fogões a lenha que também não posso ter em casa, os vizinhos certamente implicariam com a fumaça, por mínima que fosse, e achariam que um pajé mora comigo enviando mensagens à aldeia cotidianamente. Também gosto de panelas de alumínio, ferro e cerâmica, dentro delas vislumbro comidas típicas como peixadas e feijoadas acompanhadas de banana frita e couve manteiga. Puxo até pelos sotaques quando vejo uma delas, pensando nas receitas que fazem da mesa brasileira uma das mais fartas do mundo. Estrangeiros empalidecem quando veem nossos quitutes e sobremesas, um cruzamento de comida portuguesa, africana e indígena, com direito a alguns pratos asiáticos que conhecemos tão bem quanto o feijão com arroz.

Imagem ilustrativa da imagem Um carrinho de memórias
| Foto: Ilustração: Marco Jacobsen



Ferramentas de jardinagem sempre foram minhas aliadas, a partir do quintal da infância quando eu tinha um rastelo apropriado ao meu tamanho. Adulta, tive enxadas, enxadões e tesouras para podar plantas enquanto durou meu idílio com casas mais espaçosas. Hoje, os quintais são quase um luxo e ainda os vejo nas imediações da avenida Duque de Caxias com cheiro de goiabas no chão e jabuticabeiras carregadas de frutos. Sabores e cores que a gente nunca esquece quando teve na vida a felicidade de nascer em cidades do interior onde, mesmo sem cavalos, vivemos infâncias livres.
Há um bocado de nostalgia num texto escrito relativamente às pressas num notebook que me permite ver os quintais do mundo, enquanto meus filhos, mal saídos da adolescência, percorrem outros caminhos onde há menos cavalos, menos pássaros e menos lenha para acender o amor pelas coisas simples.
Nas lojas do ramo tudo é passado que se encosta magicamente ao presente, enquanto o futuro nos aponta para um mundo cibernético no qual cliques e comandos substituem texturas de crinas, pelos e penas. Com alguma sorte, ainda se ouve o canto de um bem-te-vi tão distante quanto as sementes que deixei nos quintais revisitados quando vejo na loja um carrinho de mão carregado de imaginação e memórias.

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