Imagem ilustrativa da imagem Sagrado Coração de Jesus
| Foto: Ilustração: Marco Jacobsen



Na última quarta-feira, chorei ao ver a imagem do Sagrado Coração de Jesus, padroeiro de Londrina, quebrada em mil pedaços na Catedral. Diante dela muitas vezes me senti acolhida, porque havia naquela representação de Jesus um abraço imaterial. Muitas pessoas já falaram sobre a violência da qual a imagem foi alvo e muitos também fizeram julgamentos, com ou sem a Bíblia. Só posso dizer que a fé é algo muito pessoal, mas sempre suscetível de manipulação. E sempre que acontecem agressões dessa ordem vejo muita gente perder a razão em nome da fé.
O homem que quebrou a imagem invocando passagens bíblicas sobre a idolatria perdeu a razão. As pessoas que julgaram o homem, sem saber o que teria deflagrado sua sessão de fúria, também perderam a razão. O que aquele homem fez foi realizar o que está em muitas pregações, um dia o vulcão irrompe depois de cozinhar as mentes em banho-maria. Aquele homem entrou na Catedral certo de que estava cumprindo um papel designado por Deus, dizem que ele entrou aos brados, como um profeta.
Como as religiões contemporâneas estão enxergando o seu Deus? Numa imagem ou num livro que passou por milênios de interpretação e traduções variadas? A responsabilidade por fazer as pessoas acreditarem em representações para acreditar em Deus, segundo cada religião, me faz pensar que quem conduz rebanhos – e há nesta expressão uma vinculação que tanto pode ser positiva quanto negativa - deve ter total responsabilidade pelo que provoca.
A intolerância religiosa remonta à história da humanidade, teve cristãos e muçulmanos como protagonistas de lutas sangrentas. Tudo isso é tão antigo quanto as religiões. O homem que entrou na Catedral pregando versículos contra a idolatria – tema recorrente na Bíblia, que adverte sobre isso desde os Levíticos até o Apocalipse – estava certamente tão perturbado quando "consciente" de seu dever. Há suspeitas de que o homem seja um desequilibrado. Neste caso, cabe questionar não só os descaminhos da religião, mas os descaminhos de uma sociedade que sempre tratou mal seus loucos. Apesar do ato que considero insano ou perpassado por ódio, vejo na atitude daquele homem o reflexo de sermões bíblicos sujeitos a interpretações. A dele o levou a atacar prontamente o "ídolo", sem pensar que as imagens em nossa mente formam o mundo ou, em outras palavras, criam a realidade. À força de palavras, repetidas em sermões, tanto os católicos que acreditam piamente na imagem do Coração de Jesus como representação do próprio Cristo, quanto o invasor da Catedral, que acredita no discurso bíblico contra os ídolos, estão corretos e, ao mesmo tempo, suscetíveis a erros. O que deveria balizar as crenças é o respeito às diferenças, tema que poderia estar em todos os sermões neste domingo. A violência do homem que invadiu a Catedral para destruir a imagem é um redimensionamento da nossa raiva cotidiana contra as diferenças. Todos os dias, através dos séculos, pessoas morrem por isso. No meu ponto de vista, a melhor parte da Bíblia são as parábolas de Jesus, nelas não há espaço para a raiva e nem mesmo para o julgamento. É nessa parte que brota o amor absoluto, varrendo a arcaica tendência humana de julgar e destruir o que não se compreende. E, diante disso, só posso desejar que a sociedade cuide melhor dos loucos e desequilibrados, criados à sua imagem e semelhança.

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