CÉLIA MUSILLI -

Roupas, memórias e desapego


Mudança de casa significa mudança de vida e reorganização de objetos pessoais.  Na mudança de endereço, há dez dias, revi vestidos, tecidos e memórias. A roupa da festa de formatura dos filhos, o corpete em veludo que ficou pequeno, o vestido que vale a pena guardar apenas pela estampa da barra que pode servir a outra roupa,  saltando do manequim 42 para o 46. O tempo passa, as roupas também, mas as memórias ficam e, mais dia, menos dia, nos vemos no impasse de guardar ou desapegar-se de uma camisa que remete a momentos que também não servem mais.


O desapego é uma arte, as mudanças um treino eficaz para nos livrarmos de "cargas" que não fazem mais sentido pelo volume a ser carregado ou pelos sentimentos que despertam. Mas para mim ainda é impossível me desfazer de coisas como a roupinha de batizado dos filhos gêmeos, feita pela tia-avó que já não está neste mundo e que bordou barquinhos e os enviou para uma vida de aventuras, embora eles não sejam marinheiros.

 

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. | Marco Jacobsen
 


Cada bordado e cada costura às vezes trazem junto um pedaço da vida. Não sentir alguma coisa quando tecidos delicados trazem lembranças mais delicadas ainda é para os fortes, neste quesito minha fraqueza é flagrante e sou cheia de sentimentalismos.


Pensando no tema da crônica esta semana, foi impossível não usar como referência as malas sendo abertas e fechadas, algumas para doação de vestidos, camisas e sapatos que fizeram parte de algum momento que esgarçou com o tempo, alguns sem conserto, outros como a fiação de fortalezas que me fazem continuar, com outro peso e outras medidas, é verdade, mas com a certeza de que vivi e vivo bons momentos  na intimidade de coisas tão simples que me pertencem não como coisas materiais apenas, mas como memórias afetivas.


A camiseta que usei num show dos Rolling Stones no Pacaembu, em São Paulo, muitos anos antes da partida de Charlie Watts, a blusa que vesti no último concerto de piano de  Hans-Joachim Koellreutter  em Londrina - ele maravilhoso, com uma bata amarela, eu de camisa branca e aquela esfera de vidro sobre o piano remetendo a um futurismo que acompanhava as notas - o vestido de algodão que usei num show de Toquinho e Vinícius - no Teatro Ouro Verde muito antes do incêndio - e o  pretinho básico do concerto inesquecível do Quinteto de Astor Piazzola, também no Ouro Verde, numa noite chuvosa que exigia galochas, mas compareci de salto porque tudo aquilo era tão elegante quanto os primeiros acordes de "Adiós Nonino."


E sucedem-se as transformações, ainda que a gente não use mais salto com frequência, mas guarde a bota de couro que ainda é fiel companheira em dias frios e dispense as sandálias prateadas que não fazem o menor sentido pelo desconforto das tiras apertadas.


Roupas que vêm e que vão, sapatos doados que vão trilhar outros caminhos. Vidas que se cruzam como uma cortina de passado, presente, futuro e um desejo indescritível de transformar tudo em poesia, dando às pequenas coisas um valor de memórias que permanecem, enquanto tecidos desfiam e a vida pede solas novas para a caminhada de um futuro que encurta através dos anos. O que importa é saber que tive e tenho uma vida boa e, no saldo final de tantos armários desfeitos, não tenho nada a reclamar.  


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A opinião do colunista não reflete, necessariamente,a opinião da Folha de Londrina.

 

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