CÉLIA MUSILLI -

Retratos falados nas redes


Recebo atualizações de uma página de São Gonçalo do Abaeté, pequena cidade do interior de Minas Gerais, onde nasceu Maura Lopes Cançado, escritora que já citei aqui por causa de uma pesquisa sobre sua vida e obra. A página apresenta personagens da cidade, comemora aniversários, tem fotos históricas, relembra casamentos e mortes, enfim, é uma página de memória. O que me chama a atenção é a forma como as pessoas são citadas, muitas pela combinação que mistura o nome próprio com o de algum parente, existe assim uma ideia de 'pertencimento' , sendo a pessoa sempre filha ou cônjuge de alguém.


Dessa forma, temos Chiquinha do Tim, Beth do Zeu, Euler da Andrezina, Maria do Demar, Chico do Xixé e outros nomes conhecidos pela comunidade. Esses nomes revelam uma intimidade geral que só se vê em bairros ou cidades pequenas, onde famílias se formam e crescem, com filhos e netos carregando suas referências.




As páginas de memórias,  em redes como o Facebook, resgatam  pessoas e costumes de modo único, numa soma de lembranças coletivas com toda riqueza do imaginário do lugar. Em Londrina temos também páginas deste tipo, com fotos que não chegariam ao conhecimento público se não fosse este trabalho. Quando as famílias abrem seus álbuns saltam lembranças que seriam completamente esquecidas se não fossem esses registros tão importantes para a história dos lugares. As fotos oficiais quase nunca revelam as sutilezas de um acontecimento, muitas vezes é pelo olhar de um grupo social que chegamos  ao clima daquele momento da história , com imagens emolduradas verdadeiramente pelo tempo.

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. | Marco Jacobsen
 

Cornélio Procópio, onde nasci, também tem uma página recente de memórias que já revelou lugares e pessoas que fazem parte de convivências que até se perderam no tempo, mas são resgatadas a cada fotografia ou citação.Esta página será objeto de uma outra crônica.


Cada cidade também é resgatada pela linguagem como neste exemplo de São Gonçalo do Abaeté , onde todos sabem quem é a Chiquinha do Tim ou a Beth do Zeu. Nos textos há também descrições de costumes, lendas urbanas, histórias que passam de geração em geração e nos dão um retrato mais completo daquilo que somos.

Um dos textos deliciosos que encontrei na página mineira, administrada por Dilma Inês Lucas, é a carta de uma menina chamada  Julia Vaz a uma colega de escola a quem ela convida para uma viagem à casa dos tios que moram, justamente, em São Gonçalo do Abaeté. Para convencer a amiga , ela fala de todas as coisas que poderão fazer juntas: "andar a cavalo, catar manga, subir em árvores." Também diz que vão "fazer doces, bolos, pão de queijo e pamonha". Adivinhem se não? Mas o ponto alto da carta é quando Julia revela à amiga: "Sabe aquele triângulo da bandeira de Minas? É um pedaço  do queijo que minha avó fazia."  Achei a ideia tão engraçada que reli a carta várias vezes.




A intimidade com as coisas da terra somada à grande imaginação popular dão a dimensão da importância das memórias de cada um que, reunidas, formam o retrato original de um tempo e lugar. A memória é uma grande construção de afetos.

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