CÉLIA MUSILLI -

Retratos do pai


Faz muitos anos que ele não está mais aqui, mas acordei com vontade de lhe prestar um tributo. Suas atitudes saltam como fotogramas revelados à luz de um dia especial.


Meu pai se chamava Antônio e tinha um senso especial de justiça. Repartia as frutas fazendo um filho cortar a maçã e outro escolher primeiro a sua metade. Assim, eliminava nossas tentativas de “levar vantagens”. Valorizava atitudes como “manter a palavra”, “ser solidário", “prestar ajuda sem fazer propaganda”.




Nos ensinou a olhar para os dois lados antes de atravessar a rua e também dava importância a conhecer todos os lados de uma questão. Acreditava em Deus e tinha uma espiritualidade viva. Mas não acreditava nas religiões e, vez ou outra, constatava decepcionado: "Como os líderes gostam de ganhar dinheiro”. No Brasil de hoje, sua decepção seria maior ainda.


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. | Marco Jacobsen


Gostava de ler e colecionar revistas especializadas em ciências, história e geografia. Eventualmente lia em voz alta, quando alguma coisa incrível chamava sua atenção. Ele não gostava dos americanos e nos anos da corrida espacial torcia pelos russos, acompanhando passo a passo as viagens de Yuri Gagarin, até que um dia chegou em casa e disse extasiado: "Viu?A Terra é azul!". Muito antes, nos contou a aventura da cachorrinha Laika na “primeira viagem de um ser vivo à Lua.” E não perdia um só lançamento de foguetes.


Não vivia sem livros e guardava recortes de jornais. De vez em quando, chegavam pelo correio encomendas tão díspares como o “Fausto” de Goethe, o Manual do Agricultor ou uma obra hermética do Círculo do Pensamento Esotérico.


Quando o assunto era saúde, se manifestava contra os cigarros, os alimentos gelados e a carne vermelha. Enaltecia a qualidade das frutas e das verduras, que preferia colher no quintal. Acreditava na “Cura Pelo Limão” e fazia uma dieta que consistia em tomar o suco de um a 12 limões em doses diárias e crescentes. Depois decrescentes. E quando nos convidava para a experiência, ali pelo terceiro dia já fazíamos caras tão feias que ele achava que tinha azedado nossas vidas. E suspendia a dieta.


Era muito amoroso com os filhos. Fazia passeios ao ar livre e nos convidava a observar o céu de noite sempre atento aos meteoros, aos satélites que passavam sobre nossas cabeças ou, quem sabe, um disco voador. Para ele tudo era possível. Por isso nunca tirou nossa esperança, ansiando por um tempo em que a humanidade atingiria um nível mais alto de consciência e luz. Morreu acreditando nisso, aos 78 anos, diabético e sem nunca ter tomado insulina.


Uma das minhas melhores lembranças é o barulho dos seus chinelos nas manhãs de domingo, a música paterna de quem me ensinou a caminhar. Era um homem à moda antiga e, para mim, um sábio. Conhecedor da minha sensibilidade e do meu coração de manteiga, aconselhava quando me via em lágrimas: “Seja altiva.” Eu tenho tentado, pai.


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