Rap em Londrina: a revolução pacífica contra a violência
O mundo precisa de um remendo na crueldade e as cidades de uma cirurgia que retire a bala e faça a costura da pacificação
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quinta-feira, 20 de março de 2025
O mundo precisa de um remendo na crueldade e as cidades de uma cirurgia que retire a bala e faça a costura da pacificação
Celia Musilli 

Se alguém disser que Paulo Soares Pereira, Paulo Eduardo Salvador, Edivaldo Pereira Alves e Kleber Geraldo Lelis Simões são as maiores vozes das periferias do Brasil, com inserções culturais em outros grandes grupos sociais e urbanos, ninguém vai saber de que tribo estamos falando.
Mas se ouvirem falar de Mano Brown, Ice Blue, Edi Rock e KL Jay milhões de fãs vão se levantar para aplaudir, agradecer e cantar junto com os Racionais MC's, maior grupo de rap do País, aquele que deflagrou uma revolução usando o ritmo e a poesia.
Que a poesia é revolucionária ninguém duvida, atravessa séculos a figura do poeta rebelde que sempre teve algo a dizer para a "civilização". A reunião da poesia com o ritmo forte acende uma vontade de destoar do rebanho para dizer o que precisa ser dito sobre a polícia, o crime organizado, a vida dura dos jovens na periferia, criando uma revolução que já tem 50 anos no mundo e mais de 35 anos no Brasil, só para ficar no exemplo dos Racionais MC's.
Aqui, gerações do rap já se sucederam e, hoje, mulheres como Ajuliacosta, Duquesa, Tasha e Tracie brilham na cena, mostrando que o gênero não é só coisa de homem, elas "batalham" em nível de igualdade.
De algumas décadas para cá, quando as cidades passam por situações críticas de violência, banhos de sangue, conflitos de população e autoridades, tem sempre alguém para fazer um rap e deflagar a bandeira do "respeita aí, que somos gente!"
Na semana passada foi assim, quando surgiu o rap logo depois da morte de dois rapazes pela PM na Favela da Bratac, em Londrina.
Disse o Mano Fler - @mano_fler : "Segue o genocídio, o extermínio de quem não tem voz/ Quando escurece na abordagem só quem sabe é nóis."
Will Azevedo - @evoluwillll - também ecoou a voz na cidade com "Mães de Luto": "Mães que choram/ protestam/ ninguém fala nada// Lavagem cerebral é discurso a todo vapor/ Está no uso do oprimido que pensa igual ao opressor."
Usar a arte contra a violência é uma das maiores sacadas de quem acredita na paz. Isso se fortalece no rap que se tornou uma bandeira anti-violência que se multiplica nas cidades. Só em Londrina, hoje são cerca de dez batalhas: Batalha do Galo, Batalha da Leste, Batalha 1312, Batalha do Café, Batalha da Concha, Batalha do Cinco, Batalha do Hemp, Batalha da Máfia, Batalha da Praça, Batalha UDV, contemplando regiões diferentes.
As batalhas se somam à cultura no enfrentamento da violência urbana, mudam comportamentos, fazem herdeiros como o Menor NPR, que já lançou seu primeiro livro de poesia - "Poesia 043" - cujo título pega carona no DDD da cidade.
O Menor NPR é destaque, nesta edição, em reportagem da Folha 2, falando de sua incursão na poesia e nas apresentações na PEL II - Penitenciária Estadual de Londrina - onde a poesia também é um alento para quem fica e para quem sai.
A arte, que cobre a vida de humanidades, é um recado potente quando o mundo precisa de um remendo na crueldade e as cidades, como Londrina, de uma cirurgia que retire a bala e faça a costura da pacificação.
Essa é a mensagem do rap, como na letra de "A Fórmula da Paz", de Edi Rock e Mano Brown - que anunciaram em 1997 sua "lealdade à quebrada" no disco "Sobreviventes do Inferno."
O rap, antes de tudo, é lealdade, quebrada é de onde ecoam os gritos das mães de luto que estão bem aqui, na vizinhança, e não dá mais para negar que todo mundo viu e ouviu a "batida".
A violência por aqui e no mundo deve ser tratada com rap e justiça.


