“Ele ergueu as mãos e um livro pousou obedientemente nelas, como uma flor aberta! Na luz fraca abriu uma página, e era como uma pétala com palavras que floresciam com delicadeza. No meio daquele fervor e correria, só teve tempo de ler uma linha, mas ela ardeu em sua mente pelo minuto seguinte, como se estivesse sido gravada com ferro em brasa.”

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. | Foto: Marco Jacobsen

O trecho é do conto “Muito Depois da Meia Noite”, do autor norte-americano Ray Bradbury, que completaria 100 anos neste 22 de agosto. Bradbury é autor de uma das obras importantes do século 20: “Fahrenheit 451”, em que aborda a destruição dos livros, numa referência ao anti-intelectualismo e à negação do conhecimento.

De tempos em tempos, a cultura é assolada pela reverência à ignorância, dando origens a coisas de triste memória, como as fogueiras de livros na Inquisição ou a queima de obras durante o nazismo.

Frequentemente, a censura travestida de bons costumes viceja e seus primeiros alvos são os livros e a cultura.

A censura ao pensamento quase sempre começa com uma tentativa dissimulada, com uma lista de obras que não são recomendadas em escolas e bibliotecas públicas ou boicotes, pelos governos, que limitam as compras de livros a serem usados nas salas de aula ou dificultam seu acesso. Existem ainda proibições de memória recente que incluem obras de arte em museus, além de performances de dança ou teatro.

O ódio aos livros pontua vários momentos da história e a ficção de “Fahrenheit 451” é de uma sagacidade ímpar ao apontar por caminhos distópicos – ou nem tanto – o risco que corremos quando os livros passam a despertar inveja ou rancor.

A Biblioteca de Alexandria,a maior do mundo antigo, foi queimada em 300 a.C., em data não exatamente conhecida.

Em Granada, em 1499, durante a Inquisição espanhola, foram queimados 5 mil manuscritos árabes. E não vai muito longe o dia em que um dos meus tios enterrou seu livros no quintal, durante a ditadura militar no Brasil, porque sabia que eles serviriam de álibi para sua prisão. Infelizmente, o “enterro dos livros” não adiantou muito, porque ele foi perseguido da mesma forma.

Na obra-prima “Fahrenheit 451”, os bombeiros deixam de apagar incêndios, porque já existem edifícios anti-fogo, e passam a queimar livros, mas Guy Montag, um dos bombeiros, se apaixona por eles. Esse tema é retomado no conto “Muito Depois da Meia Noite” que faz parte da coletânea “Prazer em Queimar”, que acaba de ser lançada pelo editora Biblioteca Azul, em homenagem aos 100 anos do autor.

Apesar dos tempos difíceis, no qual moralistas já praticam censuras – a partir do que chamam “guerra cultural” - e invadem hospitais para constranger profissionais de saúde pelo tratamento dispensado aos pacientes com coronavírus ou pelo aborto legal de uma menina de dez anos estuprada pelo tio, desejamos que as linhas continuem a arder nos corações e mentes. E que os livros se abram como uma flor.

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