Quase uma oração
PUBLICAÇÃO
sábado, 27 de julho de 2019
Celia Musilli - Grupo Folha 

Senhor, neste friozinho em que tenho vontade de dormir como um gato, dai-me forças para fazer tudo que preciso, ânimo para acordar cedo, coragem para trabalhar o necessário, além de arrumar a cama. Me livre da preguiça, do hábito de praguejar contra o relógio, do desejo de comer a toda hora, da vontade de ficar entre as cobertas, da tendência de abrir só um olho para manter a sensação de que ainda está escuro.
Não me deixe cair na tentação de comprar vestidos de lã e casacos com gola de pele, me dê a piedade necessária para zelar pela vida dos animais sem sacrificá-los por vaidade.
Também me livre da vontade de ficar só de pijamas e usar pantufas que se encontram aos montes nas lojas populares, elas nos induzem à preguiça e ao desejo de ficar em casa.
Que eu seja forte o suficiente para não querer passar horas a fio diante dos fogões à lenha que me dão uma vontade danada de comer pipoca e bolos de milho.
Que eu aproveite o frio para ler e escrever mais, para pregar botões nas camisas dos filhos como fazia minha mãe, sem que isso me induza à ideia de subserviência feminina. É bonito ver uma mãe pregar botões, a cena sempre me deu a impressão de cuidado, até que vieram os tempos modernos e o hábito de comprar tudo novo sem que se cultive os zelos pelo usado.
Que o frio me estimule a pensamentos cintilantes como as estrelas ou como os olhos dos gatos. Me leve a festas juninas para beber vinho quente e tudo o que nos dá prazer pela ideia de que viver vale pena pelas pequenas coisas, quem dirá pelas grandes.
Que a minha felicidade seja como um cartão-postal, onde a neve empresta beleza à paisagem, mesmo que eu não tenha neve, mas só uma geadinha de vez em quando.
Que eu sinta prazer em colar o nariz na vidraça para ver a neblina, ainda que não esteja em Londrina para admirar os vales cobertos de fog. Que eu me sinta em Londres sem sair do Brasil e visite a Trafalgar Square em sonhos, ouvindo as músicas dos Beatles e o Big Ben, como nos tempos em que colava o ouvido no rádio para escutar a BBC, sentindo saudades do que nunca vi.
Que eu curta os amigos em lembrança na mesa do bar e os reúna em íntima companhia dentro de casa, quando as portas se fecham para conter o frio e os corações se abrem.
Por outro lado, se o Senhor me livrar do ócio exagerado, prometo trabalhar no verão como uma formiga, embora goste mesmo de ser uma cigarra. Mas, por favor, não me deixe hibernar como um urso porque a vontade é grande e não fiz nada direito hoje. Temo pelo amanhã porque dizem que a temperatura vai cair e isso aumenta minha vontade de passar mais um dia como uma espécie da Patagônia, abrindo um olho de cada vez para ter a sensação de que ainda está escuro.
Prometo dividir contigo o chocolate quente, as meias e o meu edredom. Amém!
* Crônica publicada em 19 de maio de 2012 – a jornalista está em férias


