CÉLIA MUSILLI -

Quase um samba


Acordei com saudade

Querendo de te ver outra vez

Querendo o carinho

Que um dia você me fez

Antes de ir trabalhar

*

Fico pensando se a gente

Ainda vai dar no mar

Que atende pelo nome de amor 

Cedendo ao desejo de amar

 

Quase um samba
 


Outro dia fiz a letra do que seria um samba, mas não sei tocar nem caixinha de fósforo. Fico admirada com essa gente que pega um violão e fica ali dedilhando, tirando cifras, melodias e me lembro de Caetano Veloso: “Como é bom poder tocar um instrumento...”. Não sei tocar nem bongô.


Na falta de talento pra fazer um samba inteiro, me contento em ouvir os velhos sambistas, os grandes, os imortais, aqueles que viveram no Rio muito antes das milícias e das balas perdidas. Aqueles que são a síntese do morro nostálgico, mistura de “moral” e boemia, de beleza e cadência, de lirismo e cachaça. São eles que resumem a vivência humana, os sentimentos que nos tomam em qualquer lugar do planeta, as emoções que se traduzem em amor e melancolia, felicidade e abandono, raiva e infidelidade.


Outro dia, assistindo ao documentário “Cartola – Música para os Olhos", dirigido por Lírio Ferreira e Hilton Lacerda, fiquei encantada com a criatividade daquele Angenor, daquele compositor que pode ser considerado o maior sambista do Brasil. Suas letras trazem a poética do coração humano, esse órgão sensível que abre portas para muitas saudades. Como são tristes as letras de Cartola, como são lindas as letras de Cartola. Embaladas por elas, promovi mentalmente um diálogo entre o que ele disse e o que disseram outros grandes sambistas. Para falar da dor do amor, este diálogo ficou assim:


“Não quero mais amar ninguém/ Não fui feliz, o destino não quis/ O meu primeiro amor/ Morreu como a flor, ainda em botão/ Deixando espinhos que dilaceram meu coração./ Semente de amor sei que sou desde nascença,/ Mas sem ter a vida e fulgor, eis minha sentença” (Não Quero Mais – Cartola, Carlos Cachaça – Zé da Zilda)

A decepção de Cartola encontra a ressonância em A Flor e o Espinho, de Nelson Cavaquinho, Alcides Caminha e Guilherme de Brito:

“Tire seu sorriso do caminho/ Que eu quero passar com a minha dor/ Hoje pra você eu sou espinho/ Espinho não machuca a flor/ Eu só errei quando juntei minh’alma à sua/ O sol não pode viver perto da lua”


Sentiram aí? Pois é. Mas tem muito mais, porque só um sambista é capaz de dar conta da malandragem de voltar muito tarde para casa e tentar o perdão da mulher amada, na maior cara de pau:

“Voltei, voltei/ Já chegou quem lhe socorre/ Já lhe avisei/ Que por falta de amor/ Você não morre/ Voltei pra matar os desejos seus/ Pra não esquecer a quem não me esqueceu/ Lhe adoro tanto, criatura/ E o nosso amor ainda não morreu (Voltei – Jair do Cavaquinho)


Como são sábios os compositores do morro. Elegem o amor como o maior dom da vida, ainda que nos dê trabalho. Por isso, sigo por aí de ouvido em pé para aprender suas lições em cada letra, em cada sílaba. E sem saber tocar nenhuma nota, deixo um samba incompleto na esperança de que um amigo - desses que dedilham bem o violão – coloque uma “roupa de gala” na minha letra desprovida de música. É que eu não queria sair deste mundo sem deixar pelo menos um samba. Seria uma vida incompleta.

Então: 


Fico pensando se a gente

Ainda vai dar no mar

Que atende pelo nome de amor

Cedendo ao desejo de amar



(Texto escrito em novembro de 2009). 


Os artigos publicados não refletem, necessariamente, a opinião da Folha de Londrina. 

 

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