Imagem ilustrativa da imagem Profissão: coletar acasos
| Foto: Ilustração: Marco Jacobsen



Num shopping central da cidade vejo uma banca com uma promoção: dois livros a R$ 15,00. Penso que é preço de sebo e, para minha sorte, o primeiro livro que encontro tem as entrevistas de Elizabeth Bishop, uma das minhas poetas preferidas, publicado pela editora Autêntica. Seduzida por preço tão camarada, vou em busca do segundo exemplar e encontro um livro de poemas de Murilo Mendes.
Sentido-me tão sortuda quanto um vizinho que ganhou na loteria, compro os dois exemplares. O de Bishop me oferece aquilo que não encontramos só nos poemas: a vida da escritora, seus pontos de vista sobre vários assuntos, a aproximação com outras celebridades e, o melhor de tudo, um panorama da imprensa na abordagem da literatura desde os anos 1950 – numa entrevista dada ao Boston Post Magazine – até um depoimento de 1986 de uma ex-aluna da poeta, publicado no New Yorker em 1986.

Gostei de saber que Bishop ocupou a Cadeira de Poesia da Biblioteca do Congresso dos EUA. Na função, ela pesquisava poemas para servirem de referências até mesmo em discursos dos congressistas. Acho a função meio insólita, mas não resta dúvida que seria de grande ajuda empregar poetas para atividades como essa, sobretudo numa fase em que os poetas não sabem como aplicar o talento para sobreviver dele dignamente. Ser poeta, infelizmente, equivale a não fazer nada no âmbito de uma sociedade que não sabe medir a produtividade por habilidades intelectuais, sendo mais fácil reconhecer o trabalho de um padeiro – igualmente merecedor de respeito – do que o trabalho de quem escreve. Se alguém disser por aí que é poeta, corre sempre o risco de receber como resposta: "Sim, você é poeta, mas trabalha com o quê?" O fato é que os artistas em geral sempre dependem do mecenato para se manterem em profissões criativas. Bishop, além de ter sido funcionária do governo americano, recebeu vários prêmios que vão da Bolsa Guggenheim a uma comenda da Ordem do Rio Branco, oferecida pelo governo brasileiro. Mas sua vida, como a de muitos poetas, nunca foi fácil.
Bishop viveu no Brasil, especificamente no Rio de Janeiro, por vinte anos, a partir de 1951. A temporada duradoura deveu-se em parte ao seu relacionamento amoroso com Carlota de Macedo Soares – ou simplesmente Lota - que foi uma das idealizadoras do Aterro do Flamengo. A poeta chegou aqui no governo Vargas, viu a queda de Goulart e compartilhava das ideias udenistas de sua amiga Lota, tecendo um histórico que hoje faria as esquerdas torcerem o nariz, mas seu talento plana acima de qualquer escolha ideológica, como deve ser.

Uma das entrevistas mais interessantes do livro, faz um retrato falado da poeta, descrita aos 67 anos como um mulher bonita. Ela fala ao entrevistador sobre uma carranca do rio São Francisco que usa como objeto de decoração na sua casa quando volta a morar nos Estados Unidos. Nela, Bishop demonstra o que quanto esteve próxima do Brasil ao falar sobre as lendas que cercam as carrancas usadas para espantar os maus espíritos e descreve, acertadamente, o rio São Francisco como o segundo mais importante do Brasil, depois do Amazonas.
O valor das entrevistas é irem além da obra dos poetas e outras personalidades, tocando nas suas preferências, vivências, impasses, traçando, enfim, um perfil biográfico. Uma particularidade de Bishop é que ela conseguia escrever prosa à máquina, mas poesia não, portanto, sua produção poética foi toda manuscrita, num ato de extrema intimidade entre a autora e a palavra.
Por esse e outros detalhes, adoro livros de entrevistas e sempre os compro quando tenho oportunidade, ainda mais se a oportunidade for oferecida a preço de sebo numa prosaica banca de livros encontrada casualmente num shopping. Acho que alguns livros me procuram antes mesmo de eu procurá-los, assim eles me atraem, alimentam e inspiram.
Presto muita atenção aos acasos e considero que ter dado de cara com este livro de Elizabeth Bishop foi uma determinação da sorte que sempre acontece quando estou distraída. Esse livro me empurra de volta à minha profissão de repórter e à minha condição de poeta, ainda que a poesia seja aquele tipo de coisa que instiga as pessoas a perguntarem : "Mas você trabalha com o que mesmo?" Trabalho para escrever histórias e não deixo passar batido nenhum acaso. E quem achar pouco que experimente fazer da coleta de acasos uma profissão.

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